Por manifesto lapso, associado a um excesso de trabalho na função profissional, assim como por algum problema de reenvio dos comentários pelo blogspot, só hoje verifiquei que havia dois comentários ao post «Crucifixos» que não tinham sido publicados - quando em regra só são rejeitados aqueles (felizmente poucos) que são ofensivos ou com torpe linguagem.
Assim, como forma de "redimir" tal situação, assim como pelo relevo que ambos os comentários revestem, aqui se publicam em destaque:
.
Xavier Ieri em 12/06/2005 09:56:56 PM:
«Espantoso é ainda, na educação, área onde se sente a necessidade de intervenção política para um ensino de qualidade no nosso país, depois de anémicas e mal estruturadas medidas de ocupação dos professores e pouco mais, ser elevado à categoria de assunto para a educação a questão de 20 (ao que parece atinge 20 escolas) escolas com crucifixos na parede.Vai sendo timbre deste Governo parir ratos atrás de ratos.
Como na justiça: Aumentar a produtividade pela redução das férias judiciais.
Como na saúde: Obter sei lá o quê para a saúde, pela venda dos medicamentos fora das farmácias.
De fonte segura vos digo: o que corre pelos deputados da AR e membros do Governo é uma postura sobranceira e arrogante contra tudo e contra todos, baseada num único e, para eles, decisivo argumento: "Nós fomos eleitos por sufrágio"; "Nós é que temos legitimidade"; "verdadeiramente nós é que somos órgãos de soberania"; "Os juízes são corpos especiais que funcionam como órgãos de soberania"».
.
JusNavegante, em 12/06/2005 11:08:34 PM:
«Tem razão, Joel Timóteo.
Além do mais, as escolas não são paredes, são pessoas.
.
Imagine-se que, numa escola pública, numa qualquer sala de aula, professores e alunos decidiam, consensual e livremente, por exemplo, colocar na parede um crucifixo, ou um quadro do Fra Angelico e fazer uma pequena oração no início de cada aula (como é usual fazer-se em escolas privadas cristãs). Estariam a violar a lei? Para o fanatismo laico estariam...
.
E se, numa outra escola, nas mesmas circunstâncias, fosse decidido colocar a estrela de David, ou a imagem do Corão, ou uma estatueta de Buda, cantando-se salmos, declamando-se suras ou confiando-se à inspiração e protecção de Buda antes de cada lição? Para os laicos militantes que se arrogam seres intelectuamente superiores aos pobres de espírito que são crentes, sim, a lei estaria a ser gravemente violada...
.
O Estado é e deve ser laico, no sentido de que não pode impor ou adoptar como oficial uma dada crença religiosa. Mas, com o pretexto da neutralidade, não pode querer impor ou "oficializar" o ateísmo, o qual, como se sabe, tem tanto fundamento científico como a fé religiosa. O que o Estado tem é que assegurar plena liberdade aos cidadãos de terem ou não uma religião e de manifestarem as suas crenças, religiosas ou ateias, nos espaços públicos ou privados, sem qualquer restrição (para além das regras normais de ordenamento e de segurança na ocupação dos espaços públicos).
.
Por este andar, qualquer dia o fundamentalismo laico descobre que na bandeira há perigosos símbolos religiosos, que têm que ser extirpados; que as comendas e condecorações que o PR atribui estão crivadas de cruzes subservivas que há que eliminar; que o Natal e a Páscoa têm que acabar dada a perigosíssima carga religiosa que transportam; que nos cemitérios municipais há ostensivos e indecorosos crucifixos; que o Castelo de S. Jorge, a Torre de Belém, o Cristo-Rei e o Templo de Diana têm que ir abaixo e por aí fora... Haja decoro!
-
Por muito que custe aos intelectuais laicos preconceituosos, o fenómeno religioso existe e existirá sempre, e é absurdo o Estado pretender criar em todas as suas instituições, organismos, espaços e domínios uma espécie de zona blindada, livre e protegida contra toda a manifestação ou simbologia religiosas, como se fosse uma qualquer servidão non credendi.
-
Subscrevo na íntegra o que Joel Timóteo diz sobre o ensino da filosofia. E vou mais longe: porque carga de água os alunos têm que conhecer em profundidade, em pormenor, em todas as suas subtilezas e variantes, as diversas correntes filosóficas, mesmo as que dimanam dos filósofos mais loucos e, por exemplo, do pensamento de Jesus Cristo, ou de Agostinho de Hipona, ou de Maomé, ou de Tomás de Aquino ou de Mahatma Gandi (dotados, no mínimo, da mesma credibilidade filosófica que os demais e que deixaram mais marcas na História do que quase todos os outros), o que os manuais têm são meras referências muito passageiras, e mais ao fenómeno histórico do que ao conhecimento profundo do seu ideário, quase com medo de que os alunos fiquem contaminados com as suas teorias perniciosas? Então não têm medo que fiquem contaminados com as teorias dos agnósticos, ateus, laicos, materialistas, idealistas, nihilistas, existencialistas, estruturalistas, intuicionistas e etecetristas?»
1 comentário:
sim! ainda os crucifixos!
A questão que a retirada dos crucifixos das escolas levantou, para mim é mais vasta do que à primeira vista quer parecer. Com efeito, não é o facto de haver ou não um crucifixo numa parede que torna a escola melhor ou pior, ou os governos bons ou maus. Mas é nos pequenos actos que as pessoas e as instituições se revelam. O que me parece é que esta atitude do Governo mostra um absoluto nihilismo quanto à responsabilidade que têm em promover o Bem Estar da sociedade, comunidade, patria... que governam.
Fala-se muito do défice, do desemprego, da baixa produtividade do pais, que como é obvio influem diretamente no Bem Estar das pessoas. Mas a melhor forma de combater tudo isso é sem duvida formar as pessoas, os cidadãos. Mas aí a tarefa é remetida exclusivamente para as escolas, as escolas remetem para os alunos, e ninguém, neste país cheio de sol, tem responsabilidade alguma sobre nada.
O Estado deve ser o nosso primeiro pai e formador. Não pode nunca professar uma religião, mas deve incitar a adopção de valores, deve estimular a valorização do Homem. Sem valores nunca os cargos serão desempenhados com rigor e responsabilidade e consequentemente o Bem que devem proporcionar à sociedade ficará pelo caminha, que é o mesmo que dizer, pelos bolsos da elite de amigos e camaradas dos "benfeitores".
Vivam as religiões, a liberdade, vivam os filósofos, viva a democracia!
Patrícia Silva
Enviar um comentário