segunda-feira, novembro 20, 2006

Euromilhões

Por: Luís Ganhão*

Recordo-me de, à data do 25 de Abril, pouco mais do que adolescente era, um velho anti-fascista me ter avisado:
«-Rapaz, aprende a respeitar mais depressa um fascista assumido, do que um oportunista!
É que o primeiro, tem, pelo menos, o carácter de se assumir como tal e, assim, sabes, pelo menos, quem tens pela frente, aquilo com que poderás contar.
Já no que ao oportunista diz respeito, nunca saberás quando ele te irá espetar uma faca nas costas!».
Como já uma vez escrevemos, dum tempo de política feita com pessoas de carácter, assumindo-se, frontalmente, de direita, centro ou esquerda, batendo-se pelos princípios doutrinários em que acreditavam, passamos a observá-la, gradualmente, povoada por gente sem carácter algum, oportunisticamente oscilando entre cá e lá, ao sabor do vento do «poder», defendendo hoje uma coisa e amanhã, se necessário, outra, felicitando e abraçando com a mesma facilidade com que, depois, rasteira!
Digam-nos, por exemplo, quantos «dissidentes» já viram no nosso país passar duma área do Poder, para fora dela?
Quantas vezes não se observam certos políticos defender uma coisa enquanto estão na Oposição e, mais tarde, coisa diferente, em sede de Poder?
Depois e sem estar em causa a evolução do pensamento, da descoberta de que, afinal, estávamos errados, chega, contudo, a chocar a facilidade com que, por vezes, se aparece a renegar tudo aquilo que antes se transportava como bandeira!
Mas aquilo que se observa na política, regista-se, também, entre nós, na designada sociedade civil, reflectindo aquela ou vice-versa, como se quiser.
A transparência da relação com os outros, a frontalidade, o carácter de se ser uma e, apenas, uma única pessoa, em qualquer lugar e circunstância, deu lugar ao mais refinado oportunismo, fingimento, ao faz de conta, ao ser-se multifacetado.
Ao tempo da solidariedade com os outros, de nos conseguirmos indignar com o que aos outros de injusto pudesse suceder, começamos a tratar, exclusivamente, da «nossa vidinha», a não querer «chatices», a «dar-nos bem com Deus e com o Diabo», indo-se, até, ao ponto de, mesmo quando interesses nossos possam estar em causa, ficarmos à espera que alguém apareça a protestar e a reivindicar por nós, a dar a cara que não ousamos dar.
Já não acreditamos nos outros, já deixamos de contar com a solidariedade deles, já não sabemos quando nos irão espetar uma faca nas costas, deles se duvida e eles de nós.
E neste tempo assim, animais sociais por definição, sentimo-nos, no entanto, cada vez mais sós, fazendo da sorte de nos sair o Euromilhões o não precisarmos de solidariedade alguma, como se este, uma vez saído, conseguisse, mesmo assim, substituir a solidariedade que tantas vezes se traduz, tão só, numa palavra amiga.
Pessimismo a mais?
Oxalá que sim!
* Advogado

7 comentários:

Conservador disse...

Deixe lá! As doutrinas que tentaram fazer a felicidade humana num dia, fizeram num século 385 milhões de mortos!Deixe lá!

Desconservador disse...

Oh! «conservador», sem que lhe tenha passado procuração quanto à minha maneira de ser feliz, sempre lhe direi que se há coisa que aprecio, por me deleitar, extasiar e fazer feliz, uma «conserva» Bom Pertisco é uma delas!
Pena que a idade já me vá obrigando a alguma «dieta».

Conservador disse...

Penso que entre outras muitas coisas também o português já funciona mal (na compreensão...). Eu disse claramente que houve mortos. Se está vivo, OBVIAMENTE não lhe passei procuração.Segundo, se é feliz e por algumas das ideias da felicidade imediata deveria comunicar à Humanidade, pois é acontecimento extraordinário! Terceiro, se é feliz e imediatamente, e sem ideias, é egoista (o que já é uma ideia) pois poderia publicar a panaceia. Quanto à marca usada, como sabe conservador pode ter outra interpretação que lhe deu e em mau português porque aí o adjectivo é "conserveiro" (v.g. indústria conserveira), e o substantivo é "conserva" como bem pode reconhecer pelo som e pela visão não é a mesma coisa. Assim, por último e concluindo, o que pretende dizer ?

desconservador disse...

Segundo o dicionário on line da «Priberam», «conservador» é aquele que conserva, sendo que no mundo da conservação vamos encontrar, justiça seja feita, boas conservas, que o mesmo dicionário define como preparação farmacêutica com flores aromáticas e acúcares.
Ora, qual o Homem a quem uma conserva assim não deleitará, ex-
tasiará e fará feliz?

Conservador disse...

Aceito o repto de bom agrado. Mas como conservador, o pessimismo sobre a natureza humana ainda me anima. Quanto às conservas, alimentam os aventureiros, os sem-pão, os desenrascados, enfim aqueles que, não se preocupando com a felicidade, aí andam. Estou esclarecido e bem!Obrigado.

desconservador disse...

Ora, aí temos um «conservador» que, pelos vistos, comerá, apenas, caviar (ou só será sucedâneo deste, comprado numa loja chinesa?) e se preocupa com a felicidade humana, apesar de pessimista quanto à natureza desta(há, paradoxalmente, gente assim).
Mas insisto, que no mundo «conservador» há boas «conservas»,que em certos momentos nos podem fazer esquecer diferenças ideológicas, deleitar, extasiar e fazer feliz, lá isso - insisto e presto justiça -há! E como desta não saio, por mim dou aqui por terminado o «debate», cumprimentando, como mandam as boas regras de cortesia, o ilustre «conservador» (se fosse uma «conserva», beijava-lhe a alva e perfumada mão).

Conservador disse...

Bem, desde a primeira frase à última, o assunto mudou. O que impõe a reflexão sobre a comunicação em Portugal. Mas este conservador de alma inteira não come caviar, e se comesse não tinha nada a ver com isso, mas importa dizer que não foi isso que se quis dizer. Sendo elemento deste conservador a conserva, como se disse, aceitei, e aceitei porque é o alimento das pessoas que arriscam, que se esforçam e os espontâneos. Só que o elemento "classista" polui...Mas, enfim, não será outro o caso. Por último, não vejo o paradoxo: não procuro a felicidade, qual é o mal...
Mas, a culpa é do sistema de educação, não deu burke, e deu rousseau, dá napoleão e não dá toqueville, deu marx e não dá dickens, dá lenin e não dá churchill, dá sartre e não dá chesterton, dá castro e não dá reagan...depois é isto!O que vale é que ainda está num espaço de 90 000km2. Outros, estão em espaços bem maiores, no resto!