. Já há dezenas de adiamentos
Magistrados decididos a continuar indisponíveis para lá da hora de fecho dos tribunais
A indisponibilidade para trabalhar além do horário de funcionamento dos tribunais, decretada pelos magistrados no passado dia 18, já teve consequências imediatas cerca de 100 diligências foram adiadas no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e, apenas 14, dos 361 inquéritos entrados no tribunal de Gondomar, tiveram andamento. Estes dados foram revelados, ontem, durante uma conferência de imprensa conjunta, promovida pelos sindicatos dos magistrados do Ministério Público e dos Juízes.
António Cluny, do Ministério Público, e Baptista Coelho, da Associação Sindical dos Juízes, denunciaram "o clima de tensão" criado pelo ministro da Justiça que, em suas opiniões, decretou, "unilateralmente", a redução das férias judiciais e a suspensão da progressão das carreiras, sem ter em conta a especificidade daquelas profissões e sem anunciar qualquer medida que, de facto, promova o descongestionamento do sistema.
Para os sindicalistas, o funcionamento dos tribunais depende da "postura" adoptada até agora pelas duas magistraturas. Muitas das diligências eram efectuadas depois das 17 horas, hora a que fecham os tribunais. Ao querer acabar com "as compensações" dadas através das férias judiciais, o Governo parece estar a fazer dos magistrados "o problema, e não parte interessada em resolver o problema". Os representantes das duas magistraturas lembram que para criar uma "cultura de dedicação" foram precisos muitos anos, mas para a destruir basta um dia. "
Os magistrados decidiram não trabalhar para lá das 17 horas, nem fazer nada para lá do que é exigível. "É uma medida legal", dizem, que está de acordo com "a consideração que temos tido por parte do Ministério da Justiça".
O Ministério Público tem promovido reuniões sectoriais, cujos resultados também foram ontem divulgados. As comarcas de Matosinhos e Loures e os círculos judicias de Viana do Castelo e de Barcelos consideram que a greve é a solução mais adequada. Outros tribunais sugerem, por exemplo, que os magistrados se recusem a usar telemóveis ou carros particulares para a realização de diligências, dando, assim, conta da falta de condições em que trabalham.
Hoje, magistrados, funcionários judiciais e Ordem dos Advogados vão ser recebidos pelo ministro da Justiça. O objectivo é voltar a encontrar "um interlocutor" no Governo. Para já, "temos sido apenas armas de arremesso de medidas", dizem.
in JORNAL DE NOTÍCIAS
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Greve é cenário, mas ...
O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), António Cluny, e o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), Baptista Coelho, admitiram, ontem, recorrer à greve, caso o ministro da Justiça não altere as últimas decisões políticas no que res-peita à Justiça. O prazo estipulado será 30 de Setembro.
Os magistrados realçaram, porém, que a paralisação apenas se realizará numa situação extrema, pois o cenário ideal para procuradores e juízes centra-se numa busca conjunta, entre magistratura e Governo, de «boas soluções para magistrados e cidadãos».
De resto, a atitude tomada por juízes e procuradores de não prolongarem o trabalho para além do horário legal já originou mais atrasos na Justiça.
in A CAPITAL
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Cinco motoristas para o ministro da Justiça
Os gabinetes do ministro da Justiça e dos secretários de Estado dispõem de onze motoristas ao seu serviço, assim distribuídos: cinco para o gabinete do ministro, Alberto Costa, três para o gabinete do secretário de Estado Adjunto do ministro da Justiça, Conde Rodrigues, e três para o gabinete do secretário de Estado da Justiça, Tiago Silveira. Estes onze motoristas respeitam apenas ao Ministério da Justiça (MJ) propriamente dito, não sendo contabilizados todos os profissionais ao serviço das direcções-gerais, como a dos Serviços Profissionais, sob a tutela deste Ministério.
A título de comparação, e como exemplo, o anterior ministro da Justiça, Aguiar Branco, afirmou ao CM que, no seu tempo, “o ministro tinha dois motoristas e cada um dos [três] secretários de Estado tinha um só”. Aguiar Branco admitiu não se recordar de quantos mais motoristas estariam ao serviço do MJ e se os então quatro chefes de gabinete dispunham ou não de motorista.
No actual Governo, por exemplo, o gabinete do ministro de Estado e das Finanças, Campos e Cunha, dispõe só de três de motoristas, segundo adiantou ao CM fonte deste gabinete (não são contabilizados os motoristas ao serviço dos gabinetes de cada um dos secretário de Estado deste Ministério).
Também segundo o respectivo assessor, o gabinete do ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, dispõe de dois motoristas: um para o ministro, outro para o chefe de gabinete.Face a esta proporção, o MJ lembra que “esse número está previsto na lei”, em concreto no despacho 45/2000, assinado pelos ex-ministros das Finanças, Pina Moura, e da Justiça, António Costa.
Um despacho que “fixa” os já referidos números de motoristas: cinco para o gabinete do ministro, três para os gabinetes de cada um dos secretários de Estado.
UM QUARTEIRÃO DE AUTOMÓVEL
Já depois de empossado como ministro, Alberto Costa fez-se transportar, no passado dia 5 de Maio, de automóvel e motorista a uma cerimónia no Conselho Superior de Magistratura, no Largo do Corpo Santo a escassos 250 metros de distância do Ministério daJustiça, ou dois quarteirões, no Terreiro do Paço. A distância era de tal modo curta que a jornalista de um canal televisivo chegou a perguntar ao ministro se: “tem medo de andar a pé?”. Na mesma cerimónia do CSM, também os secretários de Estado Adjunto do ministro da Justiça, Conde Rodrigues, e da Justiça, Tiago Silveira, se fizeram transportar em automóvel do Ministério , cada um na sua própria viatura.
ORDENADO
Um motorista oficial em topo de carreira ganha cerca de 700 euros líquidos de ordenado-base. No início de carreira, o ordenado base é inferior a 450 euros líquidos.
HORAS
Ao vencimento base, os motoristas podem juntar um máximo de 80 por cento em horas extraordinárias quando ao serviço do ministro ou 60 por cento ao serviço da Secretaria Geral.
in CORREIO DA MANHÃ
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Pelo andar da carruagem
VASCO GRAÇA MOURA, in DIÁRIO DE NOTÍCIAS
«Entrou-se no odioso de indagar quanto ganham gestores públicos e altos funcionários.
Esquadrinham-se inquisitorialmente os vencimentos, as reformas, as gratificações, os prémios, os benefícios marginais.
Em jeito de denúncia virtuosa, comparam-se os níveis respectivos com o vencimento do Presidente da República.
O objectivo inconfessado e miserabilista é o de se estimular a abjecta indignação do "parece impossível!..."
Só não se conclui o que é evidente o vencimento do PR é que está mal, quer objectivamente, quer como termo de referência.
Mal se espevita a pressão sobre o Governo, este anuncia pressurosamente que considera tais "abusos" escandalosos e que vai pôr- -lhes cobro num ápice.
O Estado, apesar de vivermos numa sociedade do mercado, da concorrência e da competitividade, prepara-se assim para reduzir de forma drástica as retribuições de uma série de cargos nevrálgicos.
Para gáudio da plebe ignara e da imprensa histriónica, elas acabarão por se diferenciar pouco expressivamente das remunerações das profissões sem qualificação especial, como a recolha do lixo ou a limpeza de sanitários.
Pelo andar da carruagem, dentro de pouco tempo os cargos e funções mais importantes, no aparelho de Estado e nas empresas públicas, serão desempenhados por criaturas de quarta ou quinta escolha.
Esse refugo, não servindo para fazer mais nada na vida, sempre rejubilará por se aninhar num qualquer posto, devidamente paraninfado por influências partidárias, mesmo que a retribuição seja modesta.
Ninguém espera dos ineptos que façam coisas por aí além, salvo umas negociatas por baixo de mão para equilibrar os magros proventos.
O Estado farta-se de insistir na formação de elites, nas altas qualificações e responsabilizações profissionais, na excelência, na investigação e desenvolvimento, na ciência, na alta tecnologia, na inovação, nos padrões internacionais, enfim, em tudo o que a retórica oficial vai papagueando.E depois não é capaz de remunerá-las segundo as expectativas geradas por esses atributos e de acordo com as regras da oferta e da procura.Pede às pessoas que alcancem a excelência e optimizem a produtividade, mas propõe-lhes que não saiam da cepa torta.
Com isto, o Estado ficará cada vez mais impotente para defender o interesse geral.
E vai tornar-se afinal muito mais despesista, porque a incompetência sai sempre muito mais cara do que a competência bem retribuída.Há todavia a lídima excepção dos profissionais de futebol.
O mesmo miserabilismo nauseabundo que acha imperdoável que o governador do Banco de Portugal ganhe quatro mil contos por mês, que o ministro das Finanças acumule uma reforma com o ordenado, ou que haja gestores públicos com retribuições apesar de tudo inferiores às dos seus homólogos europeus, não tugiu nem mugiu por haver futebolistas a ganharem três, quatro, cinco, "n" vezes mais do que qualquer deles e, se calhar, a gozarem de privilégios fiscais ainda por cima.
Entre nós, as responsabilidades da marcação de golos são muito superiores às responsabilidades ligadas ao sistema financeiro ou ao sistema empresarial do Estado.
No país da meia bola e força e sob o signo do esférico, caminhamos para um lindo enterro.
Mas não é pelos ordenados, reformas e benefícios dos altos quadros da administração e das empresas públicas.
É pela demagogia asinina com que o Governo tem conduzido todo o processo e pela sinistra impotência em que vai ficar para controlá-lo».