CADA UM NO SEU LUGAR
(...) Os magistrados, em Portugal, a começar pelos juízes, ainda se não habituaram bem à ideia de viverem fora da órbita dos outros poderes e, nomeadamente, do poder executivo. É um resquício que vem de trás, de longos anos de subalternização e que não foi banido com o «25 de Abril» (...)
(...) Ora, este afrontamento, com muitos aspectos de acinte, pode ao menos servir para se colherem as lições de uma outra forma de estar. Os representantes do poder judicial devem aprender finalmente a comportar-se responsavelmente e de uma forma verdadeiramente independente, sem enquistamentos corporativos e sem «cumplicidades» comprometedoras com os outros poderes, nomeadamente com o poder executivo. Destes só há que reclamar o que deles pode e deve ser exigido: o estabelecimento das condições necessárias ao exercício eficaz e independente (também do ponto de vista económico e financeiro) do poder judicial, o que não significa alheamento à prestação de contas à comunidade dos cidadãos, que detém a totalidade da soberania, de que o poder judicial é uma parcela.
E não tenhamos dúvidas: se o sector da administração da justiça é um dos mais resistentes à mudança, como se diz, também outros importantes sectores da sociedade, onde se contam as chamadas «elites», resistem arrogantemente à independência do poder judicial.
Como, de resto, se tem visto ao longo dos últimos anos. Ora, é preciso que cada um tenha a noção do seu lugar e que os representantes do poder judicial aprendam de uma vez por todas a ocupar o que lhes compete, sem servilismos de nenhuma espécie, com dignidade institucional, e não temendo as críticas que lhes façam chover sobre as cabeças (venham as que forem bem intencionadas, ainda que contundentes e, quanto às mal intencionadas, deixemo-las com os seus autores, que, mais cedo ou mais tarde, se deslustrarão com elas) e muito menos as ameaças e as pressões, sejam elas explícitas ou camufladas, directas ou em forma de aviso retorcido.
É reconfortante cumprirmos o nosso papel com isenção e independência, sem devermos nada a ninguém. Mas temos de reconhecer que esse papel é difícil, sobretudo porque exige uma maturidade cívica e um espírito crítico capaz de forjar independência mesmo em relação às formas mais subtis e refinadas de pressão – os pequenos recados, mandados muitas vezes por vozes «autorizadas», as pequenas insinuações, os elogios de conveniência, etc. (...)
ARTUR COSTA, in CUM GRANO SALIS (LINK)
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(IN)CAPACIDADES TÉCNICAS
"[Numa assembleia da Ordem dos Advogados, em Coimbra] (...) António Manuel Arnaut falou, a propósito dos juízes, na incapacidade técnica de muitos, aí residindo uma das feridas que era preciso pôr a sangrar, nem que fosse com a ponta feroz de uma unha.
Pois bem! O que me pergunto é se a incapacidade técnica dos juízes é algo de saliente em relação à incapacidade técnica de quaisquer outros profissionais, nomeadamente dos advogados. Será que a referida incapacidade técnica se concentrou nos juízes, a ponto de não sobrar nenhuma para as outras profissões forenses? Será ela tão gritante, nesse corpo profissional, que ultrapasse escandalosamente aquela quota de incompetentes que há em todas as profissões e também, naturalmente (peço a devida vénia para o dizer), no seio dos advogados? No meu juízo, isso afigurava-se como evidente, lendo e analisando, por dever de ofício, tanta motivação de recurso e tanto requerimento, muitas vezes salvos – pensava eu – à conta da complacência do tribunal e de uma jurisprudência que só não é taxada de permissiva por estarem em causa direitos fundamentais dos arguidos.
No meu modesto entender, haveria uma escassíssima percentagem de peças excelentemente argumentadas, uma fatia maior de peças razoáveis e um número considerável de peças que estão no limiar do tolerável ou abaixo desse nível, tanto mais que qualquer licenciado pode advogar no Supremo, certamente por força da presunção de que todos os advogados estão em pleno gozo da capacidade técnica.
«Que trabalhem! Que trabalhem!» - exaltaram-se algumas vozes nessa assembleia. Como se esses exaltados trabalhassem noite e dia. Como se fossem uns mouros de trabalho. Vistas, porém, as coisas pelo lado fiscal esses esforçados facturam pouco, ou porque realmente trabalhem em permanente abnegação, ou porque o seu trabalho não é devidamente recompensado".
IDEM
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D. QUIXOTE
«O António Marinho e Pinto voltou à carga com os ataques descabelados aos magistrados. A sua cegueira é de tal ordem que, como D. Quixote, viendo en su imaginación lo que no veía ni había, fantasma coisas mirabolantes a propósito dos magistrados, transformados nos moinhos de vento em cujas velas vai espadeirando a torto e a direito com a sua pena. Desta vez, para além do habitual chorrilho de impropérios, é o «escândalo» das custas judiciais, que segundo ele vão para os bolsos dos magistrados, porque vão enriquecer os cofres dos seus serviços de saúde. Mas, tal como sucedia a D. Quixote, a cutilada que o António Marinho e Pinto desferiu volveu-se em dano próprio. É que foi a maneira de toda a gente ficar a saber que parte das custas cíveis vão, afinal, em maior percentagem do que para os Serviços Sociais do Ministério da Justiça, para os cofres da Caixa de Previdência da Ordem dos Advogados. Assim, o Ministro já disse que ia acabar com esse «desvio» e o António Marinho e Pinto prestou, como se vê, um grande serviço à sua classe».
IBIDEM
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DEIXAR DE SER ESCRAVO E VIVER A VIDA
«(...) Os ataques sistemáticos que têm vindo a ser feitos aos magistrados, acentuando injustamente a ideia de que não trabalham e não fazem nada (esta tecla foi batida também pelo Miguel de Sousa Tavares e está a generalizar-se na opinião pública) têm uma consequência imediata (e por mim falo): vão fazer com que os magistrados (pelo menos os que trabalhavam no duro) olhem mais pela sua vida e a encarem também numa perspectiva licitamente lúdica (fins-de-semana, feriados, férias).
Ao menos isso. «Se não podem ser beneficiados, também não podem ser prejudicados», foi mais ou menos isto que disse o Procurador-Geral da República, já não sei em que programa televisivo. (...)
Na prossecução desse objectivo, penso que nos devemos deixar de floreados teóricos nas decisões, de erudição jurídica e de grandes relatórios, assim como é preciso ser mais rigoroso no exame preliminar dos recursos (no caso dos tribunais superiores), deixando prosseguir os que devem prosseguir, mas rejeitando os manifestamente improcedentes (e não estou a falar de expedientes para evitar trabalho), pois tem havido um critério muito lasso nesta apreciação. De contrário, chegaremos às férias com uma porção de processos por decidir e teremos depois, de uma assentada, os que ficaram retidos nas mesmas férias».
IBIDEM
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DITADURA FISCAL ?
«(...) Calmamente, o PR inverteu a Constituição num ponto vital de garantia dos cidadãos todos são culpados até provarem a sua inocência. Com um discurso que já não se ouvia desde o Prec, e que terá como primeiro resultado a fuga de capitais (ajudada pelo continuado anúncio de medidas, qual delas a mais intimidatória, de um tal Plano de Emergência do fisco, que quer acesso a tudo, sem intervenção judicial nem vigilância superior), o país ameaça transformar-se numa ditadura fiscal, onde os bancos deixam de dar garantias de sigilo mínimo, e onde, um dia, os colchões voltam a estar na moda como primeira hipótese de aforro. Sampaio disse: "quem enriquece sem se ver donde lhe vem tanta riqueza" tem de "explicar à República (!) como e quando, isto é, a ter de fazer prova da proveniência lícita dos seus bens".
Ora bem! Constitui-se uma comissão, que elabora a lista de suspeitos, que é o país inteiro, e a partir daí ataca-se o suposto infractor, que levará anos a tentar ilibar-se de qualquer suspeita.
Isto não é um princípio democrático, é uma guerra civil contra quem trabalha, dia e noite, para viver com dignidade.
E, como sempre, será a classe média - porque a outra nunca cá teve o dinheiro - a principal suspeita deste discurso radical, inconstitucional e nada tranquilizador. Pelo que se percebe, o Governo achou a ideia boa, e não se admirem se o OE de 2006 passar a ser a nova Carta Constitucional da falta de Direitos e Garantias dos cidadãos. (...)»
LUÍS DELGADO, in DIÁRIO DE NOTÍCIAS
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SINDICATO DOS REGISTOS E NOTARIADO PONDERA ACÇÕES JUDICIAIS
«O Sindicato dos Trabalhadores dos Registos e do Notariado (STRN) anunciou hoje que pondera avançar com acções judiciais contra o Governo no Tribunal Administrativo devido às medidas aprovadas para o sector da Justiça.
José Francisco Ribeiro, do secretariado nacional do STRN, afirmou à Lusa que o sindicato poderá avançar judicialmente contra a "inconstitucionalidade" de algumas medidas do Executivo, entre elas os dois diplomas aprovados ontem em Conselho de Ministros, que alteram o regime de assistência na doença dos funcionários do Ministério da Justiça. Segundo o Governo, os documentos promovem a convergência "em termos de âmbito material" do subsistema de saúde dos Serviços Sociais do Ministério da Justiça com a ADSE. A excepção é feita às forças militares e de segurança, que deverão continuar a beneficiar de subsistemas especiais na assistência à doença.
José Francisco Ribeiro, do secretariado nacional do STRN, afirmou à Lusa que o sindicato poderá avançar judicialmente contra a "inconstitucionalidade" de algumas medidas do Executivo, entre elas os dois diplomas aprovados ontem em Conselho de Ministros, que alteram o regime de assistência na doença dos funcionários do Ministério da Justiça. Segundo o Governo, os documentos promovem a convergência "em termos de âmbito material" do subsistema de saúde dos Serviços Sociais do Ministério da Justiça com a ADSE. A excepção é feita às forças militares e de segurança, que deverão continuar a beneficiar de subsistemas especiais na assistência à doença.
Por questões de igualdade, o STRN defende o fim de excepções ou então o alargamento desse regime aos trabalhadores dos Registos e Notariado, já que "quem está no atendimento ao público está sujeito a vários problemas".
Para o sindicalista José Francisco Ribeiro, o diploma "é atentatório do estatuto jurídico-contratual" que o Estado tem com os trabalhadores daquele ministério, estando em causa cerca de 15 mil beneficiários directos e indirectos dos registos e notariado.
"O ministério não cumpriu o decreto-lei 23/98 que define a negociação colectiva na Administração Pública", sublinhou o responsável do sindicato, que defende a manutenção do actual regime de assistência na doença.O Sindicato dos Trabalhadores dos Registos e do Notariado já anunciou que fará greve no dia 26, coincidindo com as paralisações dos juízes, magistrados do Ministério Público e funcionários judiciais.
O STRN garante ainda que os trabalhadores dos Registos e do Notariado pretendem participar na manifestação dos vários operadores judiciais, dia 26, frente ao Ministério da Justiça, em Lisboa. Em causa está também a revisão dos vencimentos, a actualização da tabela de emolumentos pessoais, melhoria das instalações de trabalho e aprovação de uma nova Lei Orgânica, já que a actual data de 1979».
In PÚBLICO (17:00h)