O ENGANO PÚBLICO
«O Público de hoje consagra nada mais nada menos do que duas páginas e um editorial ao caso Paulo Pedroso. O título que conta é: "Pedroso vai exigir investigação à equipa responsável pelo processo."
O caso PP é um , entre centenas ou milhares que passam nos tribunais portugueses, nos quais os arguidos investigados são acusados e após a reapreciação dos factos em sede de instrução criminal, não são julgados por ausência de indícios suficientes, assim entendidos pelos juizes que apreciam de modo independente os factos contidos nos processos.
Poucos arguidos se manifestam vilipendiados e ofendidos com as imputações que não passam no crivo da instrução criminal, a ponto de instaurar processos contra as entidades que os investigaram.
A lei que temos – a Constituição e a processual penal- é claríssima ao dizer que só pode haver responsabilidade, civil neste caso, do Estado, quando haja, pelo menos erro grosseiro de quem investigou.Esse erro tem que ser notório, "palmar".
Por isso mesmo, os processos de responsabilidade civil instaurados contra o Estado, em primeiro lugar e posteriormente, se tal for viável, contra as entidades investigadoras, são raros, por causa disso mesmo. Por uma lógica imanente: os erros "palmares", " de caras", evidentes, não são usuais nem sequer relativamente frequentes.
Então, porquê esta sanha a cheirar a ajuste de contas, contra quem investigou um cidadão que se quer como os demais, mas que tem a atenção dos pares que o recebem em apoteose num Parlamento que supostamente é uma das casas mais importantes da nossa República?!
Como é que chegamos a este estado de coisas? Onde pára o senso comum dos catedráticos; dos prelados; dos magistrados; dos políticos sérios?!
A notícia do Público, assenta em poucos factos: O irmão do investigado PP, este um cidadão comum, igual a todos nós, rebela-se contra os poderes que o Estado erigiu como detentores do dever de investigar crimes e acusa-os de uma negligência da investigação( MP e PJ) que para ele é notória. E pede contas de somar indemnizações que já vão em 800 mil euros ! ( só por curiosidade, a taxa de justiça inicial custa pouco mais de mil euros- e ainda dizem que a justiça está cara...).
Rebelar-se contra a investigação é normal. Ninguém gosta de ser acusado, mesmo justamente. Aduzir argumentos fortes contra os investigadores, é que já não á para todos! Ou seja, há uma diferenciação: quem tem advogados determinados e que têm muito a ganhar ou perder, pode dar-se a esse luxo de aduzir argumentos, extraídos da raiz dos dentes. E que toda a gente percebe que doem... e são, por isso mesmo, eles próprios passíveis de reversão contra quem os usa...
Então vejamos como se diferenciam, nos media como o Público, os arguidos excelentíssimos dos comuns dos mortais.
O irmão de PP, ao contrário do Público que já transcreve partes do acórdão, pressupondo o seu estudo cuidado, declarou esta manhã à TSF que "ainda está a estudar o acórdão" , para ponderar acções contra o MP, designadamente o próprio PGR e até procedimento criminal!!Seria inédito em Portugal e talvez no mundo civilizado, tal acção. Nem a própria Leonor Beleza mais o seu advogado Proença, se lembraram de tal! É de valentes?! É. Como o é um tal Costa Freire que também ameaçou com acções de vulto para repor a honra perdida num processo prescrito.
Vamos a ver se a entrada de leão, não redunda numa retirada de sendeiro.
Como se ouve na rádio, o tal Irmão do investigado PP, pondera ainda aquilo que desde logo adiantou ao Público ser a consequência da "notória negligência da investigação".
O Público, pelas teclas da dupla habitual de jornalistas de assuntos judiciários, dá um relevo alto a estas declarações e nesta parte, entretece o artigo com um único facto, relatado em directo pelo Irmão de PP: " O que a Relação veio dizer foi, no fundo, que o meu irmão não devia ter sido acusado. Mais uma vez foram postos em causa os indícios, o que reforça a nossa convicção: a prisão foi ilegal."
O Público emoldura este facto com transcrições do acórdão e que qualquer jurista ou advogado por pouco experimentado que seja, ao lê-las, imediatamente as tomará como banais em casos que tais, contendo retórica jurídica que em sentido comum, toma outra direcção. Porém, não revelam a contundência anunciada e muito menos revelam a inocência do acusado.
É esta a matéria em causa na "vexata questio"!
O TRL pôs em causa os indícios e decidiu que PP não deveria ter sido acusado! Extraordinário?! Nem por isso. Provavelmente, todos os dias as Relações deste país decidem sobre assuntos destes. Sem história. Sem parangonas de jornal. Sem Irmãos a rasgarem vestes de indignação. Sem jornalistas solícitos a recolher depoimentos e a lavrar editoriais. Sem manipulação da opinião pública!
Mas agora, diz-se: Ah! Ainda bem que foi este! Olha se fizeram uma coisa destas, a este pobre desgraçado, político promissor, "futuro primeiro ministro", o que não farão ao cidadão comum!
É óbvio o raciocínio enviesado, para distorcer o facto nuclear: distinguir e diferenciar quem se liga ao poder político ou mediático e por isso se arroga o poder de influência máximo. Alguém contesta?!
Mas vejamos mais além:A notícia central das duas primeiras páginas do Público mais o editorial assinado por Amílcar Correia, aponta ao coração do MP: o PGR e o MP são entidades de má índole, singular e colectivamente. E a Pj também. Não há volta a dar-lhe: exige-se a investigação à equipa de investigação, "porque a negligência na investigação é notória" Atenção! Fala-se em "negligência notória". Ainda não se chegou ao dolo ( esse fica por conta da sugestão de Vital Moreira...), mas já não falta muito. O editorial de Amílcar, então, é a repetição do requisitório habitual: bate-se na Justiça, argumentando-se com acórdãos da Relação. Ou seja, atira-se a justiça da Relação de Lisboa contra a justiça da primeira instância e das entidades investigadoras! Paradoxo? Nada. Não há paradoxos para jornalistas empenhados em descobrir a verdade. Que é, curiosamente, apenas aquela que se deixa entrever dos argumentos da defesa!
No artigo em causa, assinado mais uma vez pela dupla Tânia Laranjo- AA Mesquita, o que se escreve de substancial?
Na notícia, ouve-se o Irmão de PP. O mesmo que ainda não leu sequer o acórdão como deve ser, mas já ameaça com processos a eito e a preceito.Com um fundamento de facto – " O que a Relação veio dizer foi, no fundo, que o meu irmão não devia ter sido acusado." , atira-se já com outro facto futuro e parcialmente ainda incerto- pedido de indemnização faraminoso contra o Estado e a intenção manifestada de procedimento, mesmo criminal, contra os investigadores.Uma cronista do jornal, Ana Sá Lopes, escreve um outro editorial sobre " a decapitação no auge da carreira política". Insere-se um artigo mais, razoavelmente bem escrito por José Augusto Moreira, sobre a responsabilidade dos magistrados. E um editorial a preceito.
E já está!Qual é a mensagem desta notícia?Só uma, ou duas: temos um MP que é menos que zero. Temos investigadores de polícia que são criminosos. Isto é grave em termos de opinião pública? Cada um que julgue por si. Merece resposta? Cada um que pense na questão. Precisa de uma atitude firme dos poderes constituidos? Cada um que pondere.
Ouviram-se ou deu-se alguma voz, por pequena que fosse, às vítimas e cujo testemunho serviu para pronunciar os restantes arguidos que se encontram a responder, depois de passarem pelo crivo da Instrução e da pronúncia?! Ouviu-se ou deu-se voz, por escrito ao outro arguido, pivot desta triste história e cujas declarações são importantes, mesmo que uma certa corrente de opinião as desvalorize?
Ouviram-se os investigadores ou deu-se voz aos mesmos?!
Explicou-se ao público leitor, como se fazem estas investigações e até como realmente se fizeram?!Deu-se alguma importância ao facto -que agora se esquece e parece importar zero,- no sentido de que os depoimentos em audiência de julgamento que decorre e que são os que verdadeiramente importam para a descoberta da verdade material, no processo, têm sido unânimes em reconhecer a responsabilidade dos arguidos nos factos incluindo o irmão daquele que agora rasga vestes em público?!
Nada! Ninguém foi ouvido pelo Público sobre esta matéria. Porque assim não haveria notícia. Ou seria basto incómoda. Porém, nada disto importa! O que conta, é vilipendiar objectivamente e mais uma vez, a entidade investigadora. Sem lhe conceder qualquer direito de defesa, porque obviamente nem merece , já que é a própria encarnação do mal da justiça. Está já condenada a um opróbrio profundo pelos jornalistas do Público. Sem agravo. Mas com uma agravante: já foi condenada antes pelos mesmos factos e continua a ser julgada, repetindo-se por isso a proibição de um ne bis in idem. O recurso que entretanto se interpôs, em artigos de opinião de sentido contrário, foram liminarmente eliminados, porque estudar processo penal e entender regras processuais e de funcionamento das instituições custa muito. É mais fácil consultar fontes. Mesmo que estejam inquinadas.
Porquê?! Vá-se lá saber...mas parece notório. É disto que gasta o Público?! Continuamos a dar-lhe e a burra a fugir...»
JOSÉ, IN GRANDE LOJA QUEIJO LIMIANO (LINK)
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EDITORIAL HIPER-IRRESPONSÁVEL
António José Teixeira, apesar de claramente conotado com o PS, faz normalmente análises equilibradas; embora sempre “a puxar” ao amor que tem ao PS, se se lhe der o desconto que se dá às paixões políticas, o resultado é normalmente aceitável.Desta vez perdeu a tramontana, ao escrever o editorial de 12/Nov/2005 do Diário de Notícias, intitulado “Justiça irresponsável”.
Produzindo processos de intenções sobre a acção das magistraturas e discreteando sobre os respectivos objectivos, AJT consegue dizer em curtas palavras enormes disparates sobre a justiça.No blog Grande Loja do Queijo Limiano consta já uma resposta ponto por ponto aos vários aspectos do editorial, para a qual remeto.
Neste post vou abordar apenas um dos temas do infeliz editorial.
Misturando alhos com bogalhos, o editorialista relaciona a investigação do processo Casa Pia com os processos reivindicativos recentes das magistraturas, mostrando-se escandalizado ao afirmar que “O desfecho do "caso Pedroso", peça importante do processo Casa Pia, surge num contexto em que os magistrados se assumem descaradamente em luta política”.
“Descaradamente” – nem mais !
Como se houvesse algum decreto divino ou pelo menos alguma orientação constitucional, legal ou ética que impedisse os magistrados de assumirem posições políticas (umas mais “descaradas”, outras nem por isso).
AJT, qual voz do dono, vem dizer aos Juízes o que o poder político espera deles: trabalhem, matem-se a trabalhar, não levantem a cabeça dos processos e não se metam a fazer política, para isso estamos cá nós, políticos e jornalistas; não sejam descarados, sejam respeitosos, atentos, veneradores e obrigados.
AJT consegue dizer em poucas palavras que não considera os magistrados cidadãos de pleno direito e que, pelo contrário, são cidadãos bastante suspeitos, capazes de tudo, designadamente de usarem os seus poderes funcionais para montarem perseguições político-criminais a jovens e prometedores políticos.
Este editorial deslustra quem o escreveu, deslustra a imprensa portuguesa e é indigno de um jornal de referência de um país europeu.
E vem repor uma questão antiga: onde é que acaba o jornalista e começa o profissional de propaganda ?
FRANCISCO BRUTO DA COSTA, IN INFORMÁTICA DO DIREITO (LINK)
.SOBRE ESTA MATÉRIA, IMPÕE-SE UM ADITAMENTO (ÀS 19:30HR)
JORNALISTA OU «COMISSÁRIO POLÍTICO» ?
«António José Teixeira, director do DN publicou um editorial no passado Sábado, dia 12, que começa assim: «A justiça portuguesa demonstrou esta semana que há muito sérias razões de preocupação sobre a sua seriedade e rigor.»
A diatribe que se segue àquele trecho tem por mote a não pronúncia de Paulo Pedroso, decidida pelo Tribunal da Relação de Lisboa, em acórdão publicitado no passado dia 10. Mas o que na realidade este escrito desnuda é a estratégia política de desprestígio das instituições judiciárias em geral e das magistraturas em particular, a que este servidor socialista se associou, cavalgando a onda.
Navega o editorialista no recorrente mas pueril equívoco de achar que as decisões judiciais têm paralelo nas resoluções políticas e que os magistrados se movem, não pelas orientações e imposições legais, mas por motivos de natureza política ou mesmo partidária.
António José Teixeira tem, como qualquer pessoa, direito à opinião. Mas a um director de um jornal com os pergaminhos do Diário de Notícias seria de exigir mais. É que a qualificação mais benévola que se lhe pode fazer é a de que ele, coitado, nem sabe a quantidade de asneiras que escreveu. Mas isso seria inadmissível, dadas as responsabilidades que são inerentes ao cargo que desempenha.
Não vou analisar ponto por ponto o despropósito das afirmações e conclusões deste editorialista. Limito-me a registar, com tristeza, que em Portugal continua a haver muita gente que ganha (bem) a vida, a escrever os maiores disparates, fazendo pose catedrática.
Paulo Pedroso não irá a julgamento porque um tribunal superior assim decidiu, em acórdão que é muito semelhante a tantos outros que são tirados diariamente nos tribunais de relação. Mas logo este tipo de comentadores clama vingança, nestes panfletos intoxicadores da opinião pública e branqueadores do envolvimento deste «futuro primeiro-ministro» (como diz Ana Gomes) no conhecido processo Casa Pia.
É que é preciso relembrar esta verdade elementar: o facto de não haver «indícios suficientes» para levar Paulo Pedroso a julgamento (possibilidade razoável de lhe vir a ser aplicada uma pena), não quer dizer que não haja nenhuns indícios e, muito menos, que este acórdão seja uma certidão da sua inocência.
Haja juízo, que a vergonha já se perdeu».
Haja juízo, que a vergonha já se perdeu».
IN BLOGUE JOEIRO (LINK)
