quinta-feira, abril 06, 2006

Aumenta corrupção entre os políticos

A corrupção regista níveis 'insuportáveis' para a democracia. A corrupção está a aumentar entre a classe política. De acordo com Euclides Dâmaso, director do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Coimbra, “em Portugal a corrupção progride e intercepta cada vez mais níveis diversos da Administração e do aparelho do Estado”, acrescentando que “boa parte da economia portuguesa flui no mercado paralelo”.
O magistrado, que falava ontem em Braga durante a semana de Direito da Associação Europeia de Estudantes de Direito, manifestou-se frontalmente contra a intenção da Unidade de Missão para a Reforma Penal de substituir as penas de prisão até três anos aplicadas aos políticos e titulares de cargos públicos acusados de crimes de corrupção por uma suspensão temporária de funções entre os dois e os cinco anos. “Trata-se de uma decisão que causa alguma preocupação e que vai contra as exigências fixadas pelas Nações Unidas”, afirmou Euclides Dâmaso, adiantando ainda “que poderá ir contra as exigências definidas na Convenção de Palermo contra o crime transnacional que Portugal já ratificou”.
O magistrado defende que aquelas convenções vão no sentido de “optimizar a eficácia das medidas de detecção e de repressão” face à criminalidade económica e à corrupção, o que não se realizaria “com a suspensão de penas aos políticos”.O procurador não hesitou em dizer que “ciclicamente emanam do interior do próprio sistema alarmantes sinais de disseminação do fenómeno corruptivo, com níveis de afectação insuportáveis para o regime democrático”.
Euclides Dâmaso preconiza “um melhoramento do controlo dos rendimentos dos titulares de cargos políticos e do financiamento das campanhas eleitorais, de forma a torná-las menos permeáveis a todo o tipo de infracções”, defendendo a criação de um organismo “independente” do Estado para executar políticas de prevenção contra a criminalidade económica.

Sempre Pela Independência

«O presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), Nunes da Cruz, garantiu, ontem, no encerramento de um colóquio sobre os 30 anos da Constituição Portuguesa, que "o poder judicial lutará com todas as suas forças para que não haja a tentação de o subalternizar ou de o beliscar na sua independência".
Nunes da Cruz, que preside também por inerência ao Conselho Superior da Magistratura, salientou que "a separação de poderes é talvez a mais importante marca original do constitucionalismo, o qual vive desde 1976 o seu mais recente capítulo". "Espero que essa situação se mantenha incólume e que não sofra limitações, seja a que título for", referiu, citado pela Lusa, no final do colóquio promovido pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.
Para Nunes da Cruz, este tipo de comemorações são oportunidades para se "depurarem as experiências vividas, através de um olhar suficientemente distanciado, delas retirando os ensinamentos possíveis" .
"A nossa história, apesar de longa - nos seus quase nove séculos - foi marcada por rupturas cíclicas que perturbaram essa capacidade de criar tradição, ou seja, de se agregarem e transferirem ao longo dos tempos os ensinamentos resultantes das diferentes experiências", concluiu».

Ministro obrigado a revelar estudo

«O ministro da Justiça, Alberto Costa, vai ter de disponibilizar o estudo no qual diz ter-se baseado para reduzir as férias judiciais, uma vez que o mesmo concluía por um acréscimo de 10% da produtividade dos tribunais se os mesmos só estivessem fechados durante um mês, no período de verão. Se o estudo não existir, como os operadores judiciários sempre suspeitaram, vai ter que o admitir. A decisão é da Comissão de Acesso Aos Documentos Administrativos (CADA) e resultou de uma queixa ali interposta pelo juiz Paulo Jorge Ramos de Faria.
Este magistrado, tendo ouvido o ministro evocar o estudo e dizer que o mesmo terá sido elaborado por um gabinete que já existia quando chegou ao ministério, que não foi por si seleccionado ou designado e que, portanto, lhe merecia "toda a credibilidade", requereu cópia do mesmo, em carta remetida ao secretário-geral do Ministério da Justiça, em Janeiro deste ano.
O juiz pedia também certificado da existência desse estudo, bem como da data da sua elaboração e autoria.
Não tendo obtido resposta, recorreu à CADA , a 14 de Fevereiro, apresentando uma "queixa contra a falta de decisão" do MJ sobre o seu requerimento. A Comissão solicitou esclarecimentos ao secretário Geral do Ministério da Justiça e também não obteve resposta. A 29 de Março, no parecer 64/2006 deu razão ao juiz e concluiu que Alberto Costa deve facultar o estudo requerido ou, no caso de não "deter o documento, deve informar o requerente de que não o possui".
No parecer, cuja conclusão já circula na blogosfera e a que o JN teve acesso na íntegra, afirma-se que "tratando-se de um estudo que esteve na base de uma decisão governamental de propor à Assembleia da República uma proposta de lei com vista à redução das férias judiciais, não conterá informação nominativa (pessoal), logo, encontra-se sujeito à regra do acesso livre, generalizado e irrestrito (...)».
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»» Sobre este assunto, ver o post de 04.04., deste blogue.
»» Texto integral da deliberação da CADA, no Dizpositivo.

Julgado de Paz na Madeira

A Câmara Municipal do Funchal espera que no final do próximo ano já esteja em funcionamento o “julgado de paz” nas instalações da antiga escola Salazar, nos Ilhéus.
O “julgado de paz” que entrará em funcionamento no Funchal, ao que tudo indica, no final do próximo ano, vai funcionar no edifício da antiga “Escola Salazar”, nos Ilhéus, onde actualmente funcionam os serviços da Direcção Regional da Educação Especial, do Movimento do Apostolado das Crianças (MAC) e dos escuteiros marítimos.
«O próximo passo será a marcação de uma reunião em Lisboa para podermos acertar os termos do protocolo», disse Bruno Pereira, referindo que, entretanto, já foi enviado um ofício ao Ministério da Justiça e ao Conselho de Acompanhamento dos Julgados de Paz a dar conta que a Câmara já escolheu o espaço para o futuro “julgado de paz”.

Oferta

(Para bom entendedor... uma imagem basta)

quarta-feira, abril 05, 2006

Imposto pelo não uso (2)

Já aqui havíamos dado eco (link) do parecer de Dr. Martins Alfaro, insigne fiscalista, segundo o qual, o direito de propriedade do proprietário de um imóvel dá-lhe o direito a gozar o bem, mas concede-lhe igualmente o direito a não o gozar, pelo que a pretensão do Governo em tributar duplamente em sede de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) os prédios devolutos, "não é conforme a Constituição" (ver texto integral em impostos.net)
Agora, veio outro reconhecido fiscalista, Dr. Diogo Leite Campos, que é também o "autor material" da Lei Geral Tributária, afirmar nas páginas do Diário de Notícias (link) que o aumento da taxa do imposto municipal sobre imóveis (IMI) como forma de se combater a existência de inúmeros prédios devolutos ou de florestas abandonadas pelos proprietários é inconstitucional. Refere este autor que em causa está o chamado "princípio da capacidade contributiva, que implica que as taxas de um imposto só possam ser aplicadas em função do rendimento, do património ou da despesa de uma pessoa".
"Por muito que se considere que é socialmente útil que se tente trazer para o mercado de arrendamento uma série de casas que ano após ano estão devolutas, o certo é que isso não pode ser feito através do aumento de uma taxa", diz o fiscalista. Isto, porque se a casa está devoluta nunca se poderá considerar que esteja a dar um rendimento ao seu proprietário.
Esta é a resposta adequada de quem sabe a todos aqueles que, alvitrando-se do conhecimento absoluto em todas as matérias do direito e fora dele, puseram em causa o blogmaster pela citação de tal parecer e desdenharam do parecer jurídico do fiscalista citado em primeiro lugar.

Contra a ordem de silêncio...

Ministro da Justiça é hoje confrontado com "afundamento" do Tribunal da Feira (edifício com apenas 13 anos).
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Há fissuras que atravessam as paredes de alto a baixo. Os rasgos no chão chegam a atingir dezenas de metros de comprimento. Não há aquecimento, há salas de audiência sem o sistema de gravação ou de videoconferência e teme-se que o edifício esteja a "afundar", devido ao terreno pantanoso onde foi construído há mais de 13 anos.
As condições do Tribunal de Santa Maria da Feira estão hoje em destaque na visita que o ministro da Justiça, Alberto Costa, faz ao local, embora no tribunal ninguém saiba se haverá anúncio de obras. Os problemas estruturais já tinham chegado ao conhecimento dos antigos ministros da Justiça Aguiar Branco e Celeste Cardona.
O tribunal da Feira é dos mais movimentados do distrito de Aveiro, com pelo menos 30 mil processos pendentes espalhados pelos quatros juízos cíveis e dois criminais. Alberto Costa é o ministro que se segue, mas os magistrados que ali trabalham têm apenas conhecimento do que vem escrito no ofício enviado pelo governante. Ou seja, que o encontro se realiza às 15h00.
"Não sabemos exactamente o propósito da visita do senhor ministro, mas se contactar com os juízes obviamente que lhe serão transmitidas as nossas preocupações", refere a juíza Ana Guedes da Costa. As preocupações prendem-se com "problemas estruturais sérios" e "condições péssimas e precárias" que condicionam o trabalho de cerca de 120 funcionários. Os resultados dos trabalhos de sondagens realizados no terreno ainda não são conhecidos. Segundo a magistrada, fala-se que o solo que sustenta a estrutura é pantanoso. "O edifício estará praticamente a afundar-se, mas ninguém nos informa se há ou não risco de derrocada", confessa. À espera de resposta concreta
O secretário judicial, Gilberto Silva, revela, por seu turno, que foi feito um "reforço da estrutura na parte nascente", mas que os problemas de fundo se mantêm. O responsável acrescenta que, há dias, dois deficientes motores se queixaram das acessibilidades. Uma das queixas ficou registada no livro amarelo do tribunal.
O presidente da Câmara da Feira, Alfredo Henriques, estará presente no encontro. "Espero que o ministro nos diga alguma coisa de concreto", defende. "Quem está a fazer a monitorização do edifício é o ministério e há indicações de que há problemas estruturais", lembra. A remodelação do actual tribunal ou a construção de um novo foram as hipóteses colocadas numa deslocação de um dos antigos secretários de Estado da Justiça. Caso se opte por uma nova infra-estrutura, a câmara local mantém a disponibilidade de ceder um terreno. O autarca garante que há toda a abertura para colaborar com o ministério.

Ordem de silêncio

Já aqui o havíamos denunciado (link), motivados por um comentário inserido num outro post. Outros blogues também o denunciaram (cfr. o Dizpositivo). A "Lei da Rolha" foi agora trazida para a 1.ª página do Correio da Manhã e deste para a comunicação geral, o que demonstra que nos últimos tempos os blogues têm-se antecipado e feito mais serviço público que o jornalismo remunerado. Fica, para registo, a notícia do Correio da Manhã:
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FUNCIONÁRIOS JUDICIAIS COM ORDEM DE SILÊNCIO
«Os secretários de Justiça estão proibidos pela Direcção-Geral da Administração da Justiça (DGAJ) de autorizar a captação de imagens no interior dos tribunais. Esta é uma das deliberações da circular de 30 de Março, intitulada ‘Comunicação de situações anómalas’. Obriga ainda os funcionários judiciais a pedir autorização para proferir declarações sobre “matérias de serviço”».
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«O Sindicato dos Funcionários Judiciais classifica o ofício como uma “afronta”, mas garante que não se vai calar sobre as más condições de trabalho. Na circular, assinada pela directora-geral da Administração da Justiça, Helena Mesquita Ribeiro, informa-se os funcionários que “não poderão autorizar a tomada de imagens no interior do Tribunal”. Além disso, deverão participar “imediatamente” à DGAJ todas as situações anómalas e reencaminhar para o Secretariado da Direcção os “pedidos de declarações sobre matérias de serviços”.
Segundo a directora, o ofício visa apenas “clarificar competências”, acrescentando que a DGAJ tem-se apercebido da existência de diversas anomalias, através das informações dadas por entidades estranhas ao Ministério da Justiça. Recorde-se que nos últimos tempos têm surgido notícias a denunciar más condições nos tribunais.
O ofício é encarado como uma “afronta” pelo Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), que denunciou recentemente, entre outras situações, as infiltrações no Tribunal de Vila Nova de Gaia.“É lamentável”, considerou o presidente do SFJ, Fernando Jorge, lembrando que não cabe aos funcionários, mas sim ao juiz-presidente de cada tribunal autorizar a captação de imagens. “As pessoas têm necessidade de denunciar as más condições em que trabalham.”
Já Felicidade Domingues, da delegação regional do Porto do SFJ, garante que todas as situações anómalas são comunicadas pelos secretários de Justiça à DGAJ. “Se isto incomoda o poder político, nós não temos medo e não nos calaremos.” A dirigente sindical sublinhou que “em matéria de serviço, nenhum funcionário presta qualquer declaração”, tendo em conta o seu estatuto. Felicidade Domingues diz ainda que “os tribunais só funcionam graças à dedicação e esforço de todos os que neles trabalham”.
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GOVERNO REJEITA ACUSAÇÕES
Helena Mesquita Ribeiro, directora-geral da Administração da Justiça (DGAJ) – serviço do Ministério do sector –, disse ao CM que a circular 22/2006 tem apenas como objectivo “melhorar a organização interna dos serviços” e “clarificar competências”, explicando que muitas das situações anómalas são comunicadas ao Instituto de Gestão Financeira e não à DGAJ. Helena Ribeiro nega que o ofício tenha como objectivo impedir a denúncia sobre as condições dos edifícios dos Tribunais, sublinhando a necessidade de a DGAJ ser informada para poder agir. O CM tentou obter ainda uma reacção do ministro da Justiça, mas fonte do seu gabinete garantiu não haver nada a acrescentar à posição da DGAJ.
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"OCULTAR MÁS CONDIÇÕES" (ANTÓNIO MARTINS, ASPJ)
António Martins, presidente da Associação dos Juízes Portugueses, considera “lamentável” que a DGAJ procure “ocultar as efectivas más condições de trabalho de muitos dos tribunais”. O dirigente diz que a atitude é “duplamente errada” e que nos “tribunais quem decide são os juízes”.
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"LIBERDADE SINDICAL" (ANTÓNIO CLUNY, SMMP)
O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público desconhece a circular da DGAJ, mas faz um aviso. “Qualquer actividade dentro do tribunal só pode ser autorizada pelo respectivo juiz-presidente.” Cluny espera que a deliberação “não possa ser entendida como uma limitação da liberdade de actuação sindical”.
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"VOLTÁMOS AO 24 DE ABRIL" (FERNANDO JORGE, SFJ)
Fernando Jorge, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, classifica o ofício da DGAJ como “absurdo” e “lamentável”. “Esta circular é elucidativa do comportamento desta DGAJ, passados 32 anos do 25 de Abril. Voltámos ao 24 de Abril de 1974. As pessoas têm necessidade de denunciar as más condições em que trabalham e repor a sua dignidade.”

PJ não pode estar ao sabor dos jogos de poder

Assim o diz o Presidente da ASJP.
O combate à criminalidade económica vai ser um teste à credibilidade e eficácia da nova equipa liderada por Alípio Ribeiro, numa altura em que estão pendentes investigações sensíveis (ver casos na página ao lado) e há um reconhecido défice na capacidade operacional da instituição, devido aos estrangulamentos financeiros que a têm flagelado. Ao cenário de penúria soma-se o do agastamento dos magistrados judiciais pela forma como foi demitido o conselheiro Santos Cabral. "PJ não pode estar ao sabor dos jogos de poder ministeriais", frisa o desembargador António Martins, presidente da associação dos juízes.
(...)Uma das escolhas mais delicadas de Alípio Ribeiro será a do sucessor de José Mouraz Lopes, até anteontem responsável da Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira (DCICCEF). A importância do combate à corrupçãoSeja magistrado ou investigador de carreira, o novo rosto da DCICCEF terá de ser um líder bem preparado para catalisar a acção dos investigadores. E também ser dotado de uma personalidade que se não deixe enlear nem aturdir com a dimensão e poder dos suspeitos sob investigação. Predicados necessários numa conjuntura caracterizada por tentativas de minimização de riscos por parte dos políticos e titulares de cargos públicos, um dos grupos de risco da corrupção, como internacionalmente é reconhecido. Um exemplo dessa tentativa de imunização judicial será a proposta surgida no seio da Unidade de Missão para a Reforma Penal para a criação de um foro próprio para os políticos. Revisão que visa alargar a todo o universo político a prerrogativa que constitucionalmente só é reconhecida ao Presidente da República, que "responde perante o Supremo Tribunal de Justiça", "por crimes praticados no exercício das suas funções".
Aquela mudança tem sido contestada por juristas e, recentemente, o conselheiro de Estado e ex-líder do PSD Marcelo Rebelo de Sousa não hesitou em rejeitar a criação de um foro próprio para os políticos e em definir aquela e outras iniciativas como uma espécie de "ajuste de contas" da classe política. A oposição tem sido grande e é muito provável que a proposta acabe por vir a ser abandonada pelos seus defensores.
Se esta mudança é previsivel, mais complexa será a alteração dos constrangimentos financeiros da Polícia Judiciária, que têm impedido a realização de diligências no estrangeiro e implicado a perda de operacionalidade da logística da Judiciária. Há carros avariados e sem conserto por falta de dinheiro. Esteve em risco o próprio abastecimento de combustível por atrasos no pagamento. Neste cenário de penúria, pouco fiados na modernização da gestão preconizada pelo ministro Alberto Costa, os investigadores desejam o fim deste ciclo de "vacas magras", que esteve na origem da demissão do conselheiro Santos Cabral. A pergunta mais ciciada pelos gabinetes é: "Que garantias obteve Alípio Ribeiro do fim do subfinanciamento da Polícia Judiciária?"
As polícias precisam de estabilidade
A demissão do conselheiro Santos Cabral foi ontem comentada pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, conselheiro Nunes da Cruz. Em declarações à Lusa, Nunes da Cruz afirmou: "Se as razões que Santos Cabral apontou são verdadeiras, aceito que de facto teria que tomar uma atitude idêntica à que tomou." O presidente do STJ recordou ainda que, quando da nomeação de Santos Cabral, discordou. "Não gostei muito que um magistrado judicial, designadamente um conselheiro, fosse para a PJ e na altura e manifestei-me contra. "
O desembargador António Martins, novo presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, exprimiu em declarações ao PÚBLICO sentimentos aparentemente contraditórios. Classificou a demissão de Santos Cabral como uma "perda para a PJ" e, simultaneamente, "um ganho" para a judicatura. "Regressa com toda a sua qualidade e saber ao STJ", disse António Martins, que já foi director nacional adjunto da PJ. O desembargador está preocupado com a "situação de instabilidade" da PJ. "As polícias precisam de estabilidade", sublinhou, enaltecendo ainda virtudes do exercício por juízes de cargos Judiciária. "Ainda bem que na direcção da PJ há juízes, porque mostraram e mostram capacidade para recusar situações que se lhe afigurem incorrectas no plano ético." "O que espero é que este tipo de situações se não repitam." "A PJ não pode estar ao sabor de jogos de poder ministeriais para ver quem manda em quê."
In PÚBLICO (apenas edição impressa)

terça-feira, abril 04, 2006

Onde pára o ESTUDO ? (2)

1. Neste blogue (link), acompanhamos o Sílaba Tónica, dando alvíssaras, a quem conseguisse encontrar o célebre «Estudo» que o Senhor Ministro da Justiça fez referência na reunião Plenária da Assembleia da República de 28 de Julho de 2005, de acordo com o qual a redução das férias judiciais irá (?!) aumentar em 10% a produtividade dos Tribunais.
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2. Um Juiz remeteu uma carta ao Ministério da Justiça, requerendo "ao abrigo das normas contidas no n.º 2 do art. 7.º e nas alíneas b) e c) do n.º 1 do art. 12.º da LADA:
- a certificação da existência deste Estudo, bem como da data da sua elaboração e da sua autoria
- que me seja fornecida uma reprodução por fotocópia ou por qualquer meio técnico do mencionado Estudo;
- a certificação da cópia fornecida".
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3. Como o Ministério da Justiça não deu qualquer resposta, o mesmo Juiz formulou uma queixa junto da Comissão de Acesso dos Documentos Administrativos, solicitando a elaboração de relatório no qual "se exorte o Ministério da Justiça a permitir o acesso ao documento identificado, nos termos pedidos".
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4. Finalmente, foi proferida deliberação pela CADA, divulgada no Blog Dizpositivo, que em súmula diz:
«4. Tratando-se de um estudo, que esteve na base duma decisão governamental de propor à Assembleia da República uma proposta de lei com vista à redução das férias judicias, não conterá informação nominativa, logo, o mesmo encontra-se sujeito à regra do acesso livre, generalizado e irrestrito, pelo que deverá ser reconhecido o direito à informação, a exercer pela formas solicitadas, aliás previstas no art. 12.º, n.º 1, alínea b) e c) da LADA.
5. Como invocado pelo queixoso, deve o Ministério da justiça certificar da existência desse estudo, bem como da data da sua elaboração e da sua autoria ou se não for detentor do estudo, deve informá-lo da sua inexistência, nos termos do n.º 2 do artigo 7.º».
Conclui, então, a CADA:"Deve ser reconhecido o direito de acesso do requerente ao documento objecto do pedido nos termos solicitados.No caso do Ministério da justiça não deter o documento, deve informar o requerente de que o não possui"»
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5. Informa o autor do aludido post que a deliberação da CADA foi comunicada ao Ministério da Justiça, tendo agora este 15 dias para lhe comunicar a sua decisão final, devidamente fundamentada. Nada sendo dito ou sendo o pedido indeferido - em desrespeito pela deliberação da CADA - , abre-se a via contenciosa através do "processo de intimação para consulta de documentos" - cfr. os arts. 16.º, n.º 3, e 17.º da LADA.

Presidente do STJ põe o dedo na ferida

PRESIDENTE DO STJ CONTRA A COLOCAÇÃO DE JUÍZES EM CARGOS DEPENDENTES DO GOVERNO
«O presidente do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), Nunes da Cruz, escusou-se hoje a comentar a demissão do ex-director nacional da Polícia Judiciária (PJ) Santos Cabral, mas disse discordar que um cargo como este, dependente do Governo, seja ocupado por juízes.
"Se de facto as razões que Santos Cabral apontou são verdadeiras, aceito que de facto teria que tomar uma atitude idêntica à que tomou", afirmou Nunes da Cruz, à margem de uma reunião ordinária do Conselho Superior da Magistratura, o órgão de gestão e disciplina dos juízes a que também preside, por inerência.
O presidente do STJ referiu igualmente que, aquando da nomeação de Santos Cabral para director da PJ, não gostou da decisão e manifestou a sua discordância.
"Não gosto muito é que um magistrado judicial, designadamente um conselheiro, fosse para a PJ e na altura eu manifestei-me contra essa ideia", acrescentou o presidente do STJ.
"Um conselheiro não deve ficar dependente do poder político, nomeadamente do ministro da Justiça e num cargo daqueles tem necessariamente que ficar", considerou ainda Nunes da Cruz».

Se incomoda, é demitido!

(1) "O Governo entendeu que a adopção e exposição pública por parte de uma entidade dele dependente de posições tendentes a condicionar a liberdade do executivo punham em causa a relação de confiança necessária entre tutela e dirigente ", justificou, em comunicado, o Ministério da Justiça». Por isso, «o ministro da Justiça informou hoje pessoalmente o Senhor Director Nacional da Polícia Judiciária, de que, por despacho conjunto dos Senhores Primeiro-Ministro e do Ministro da Justiça, foi hoje posto termo à respectiva comissão de serviço, com efeitos imediatos».
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(2) O presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, António Martins, considerou ontem que a Polícia Judiciária (PJ) perde muito com a saída de Santos Cabral, embora seja a magistratura que tenha a ganhar, com o seu regresso ao cargo de juiz. O juiz António Martins afirmou não conhecer o procurador agora nomeado, pelo que preferiu não se pronunciar sobre a escolha do Governo, mas desejou-lhe sorte, "porque a sociedade portuguesa precisa de uma PJ a trabalhar bem e com prestígio". Para o responsável a saída de Santos Cabral é “uma perda para a PJ” mas "é um ganho para a magistratura judicial”, já que o director nacional da PJ demissionário vai agora “poder regressar aos tribunais”. António Martins sublinha, porém, ficar “com a sensação que o sistema de Justiça perdeu muito".
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(3) Marques Mendes, líder da oposição, declarou à Lusa que «o governo convive mal com uma justiça independente", ao criar "permanentes conflitos com a justiça e magistrados e agora também a com a PJ". "O Governo tem dado muitos sinais de querer controlar a justiça, o que não é bom. Espero que não tenha essa tentação", disse aos jornalistas.

segunda-feira, abril 03, 2006

Coisas realmente importantes

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José Sócrates e Joe Berardo na celebração de protocolo entre o Governo e a Fundação Berardo para expor a colecção Berardo no CCB. Imagem adaptada da foto do dia da Lusa.

Divulgação de Eventos

DESAFIOS PARA UMA NOVA ÉPOCA
O praticante desportivo - perspectiva tridimensional: jogador, trabalhador e"activo"
A Faculdade de Direito da Universidade do Porto deu início, no mês de Março,a um ciclo de conferências intitulado "Desafios para uma Nova Década". No próximo dia 4 de Abril, pelas 14h30, realizar-se-á, no Salão Nobre desta Faculdade e no âmbito das comemorações dos 10 anos, uma outra conferênciadesta vez subordinada ao tema "O praticante desportivo - perspectivatridimensional: jogador, trabalhador e «activo»".
Programa:
04.04.2006 -14h30
Conferencistas:
Prof. Doutor João Leal Amado - Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC)
Mestre Albino Mendes Baptista - Docente Universitário
Mestre Daniel Sá - Docente Universitário
Dr. Joaquim Evangelista - Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol
Moderador:Dr. Renato Dias dos Santos
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DEBATE
Revisão do processo tributário e avaliação do processo Administrativo
Realiza-se no dia 7 de Abril, no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a sessão de abertura de um ciclo de debates dedicados à Revisão do Código de Procedimento e Processo Tributário e à Avaliação do Código de Processo nos Tribunais Administrativos. Consulte aqui o programa da sessão de abertura, cuja entrada é livre.
No colóquio de abertura será apresentado um anteprojecto de revisão do Código de Processo e de Procedimento Tributário e da Lei Geral Tributária e tornado público o calendário dos vários colóquios, elementos que oportunamente divulgaremos nesta página bem como em http://rca.cejur.pt/. A entrada no colóquio é livre e não depende de inscrição prévia.

A recuperação económica

Défice orçamental em 2004 = 5,20%
Défice orçamental em 2005 = 6,02% (*)
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(*) Mesmo com aumentos de IVA (2%), imposto sobre produtos petrolíferos, congelamento de salários e subsídios ...

sábado, abril 01, 2006

STJ com sítio renovado

O sítio da internet do Supremo Tribunal de Justiça (link) foi renovado, com novo grafismo e novos conteúdos.
O Juiz Conselheiro Dr. Nunes da Cruz dá as boas vindas aos internautas a essa Suprema Casa da Justiça lembrando que "a independência do poder judicial que ficou consagrada, desde logo, na primeira Constituição — publicada em 1822 na sequência da Revolução Liberal que estalara dois anos antes — revela-se, hoje como ontem, pela própria independência e elevação da acção regular e continuada dos tribunais. A Justiça, na aplicação do Direito que a legitima, é depositária última, por um lado, dos grandes valores humanos e sociais que os cidadãos entendem preservar e pilar indispensável, por outro lado, ao desenvolvimento harmonioso e sustentado que se deseja".

Dois nomes de prestígio

«O antigo ministro da Justiça Laborinho Lúcio e o penalista de Coimbra Costa Andrade são os nomes indicados pelo Presidente da República para integrar o Conselho Superior da Magistratura (CSM), disse à Lusa fonte de Belém.
De acordo com a Constituição, compete ao Chefe de Estado «nomear dois vogais» do CSM, que é o órgão de gestão, administração e disciplina dos juízes.
O CSM é presidido, por inerência, pelo presidente do Supremo Tribunal d e Justiça (STJ) e composto por dois vogais designados pelo Presidente da República, sete membros eleitos pela Assembleia da República e sete juízes eleitos pelo s seus pares.
Álvaro Laborinho Lúcio, antigo ministro da Justiça em governos chefiados por Cavaco Silva, desempenhou até agora as funções de ministro da República para os Açores, tendo sido substituído esta quinta-feira pelo juiz conselheiro jubilado José António Mesquita, que tomou posse como Representante da República naquela região autónoma.
Manuel Costa Andrade, antigo deputado do PSD, é especialista em Direito Penal e professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra».
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«O Presidente da República, Cavaco Silva, escolheu o antigo ministro da Justiça Laborinho Lúcio e o penalista de Coimbra Costa Andrade para integrarem o Conselho Superior da Magistratura (CSM), o órgão de gestão e disciplina dos juízes. Os nomes terão sido discutidos numa reunião entre o chefe de Estado e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e do CSM, Nunes da Cruz, no passado dia 17. O encontro ocorreu oito dias depois da posse de Cavaco Silva.
Laborinho Lúcio e Costa Andrade vão substituir as duas individualidades nomeadas pelo ex-Presidente Jorge Sampaio: juiz conselheiro jubilado Sampaio da Nóvoa e o advogado Guilherme da Palma Carlos.O Conselho Superior da Magistratura é composto por 17 membros, sete são juízes eleitos pelos seus pares, sete são designados pela Assembleia da República, dois são indicados pelo Presidente da República e um – o presidente do Conselho – é ocupado por inerência pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
NOVA REUNIÃO
O presidente do Supremo, Nunes da Cruz, será recebido em Belém pela segunda vez na próxima terça-feira. Na véspera, Cavaco Silva recebe os juízes do Tribunal Constitucional e o presidente do Tribunal de Contas. O primeiro encontro, onde terá sido discutida a substituição dos dois vogais do Conselho Superior da Magistratura, prolongou-se por mais de uma hora. Nele terá sido abordado também o grave conflito institucional entre a Magistratura e o Governo, um conflito que o ex-Presidente Jorge Sampaio se revelou incapaz de solucionar. Férias judiciais, serviços sociais e regime de aposentação são algumas das medidas do Executivo que não agradam à Magistratura e que levaram juízes e Ministério Público à greve.
Álvaro Laborinho Lúcio, nascido em 1941, na Nazaré, foi ministro da Justiça nos governos chefiados por Cavaco Silva. Desempenhou até agora as funções de ministro da República para os Açores, tendo sido substituído anteontem pelo juiz conselheiro jubilado José António Mesquita, que tomou posse como Representante da República naquela região autónoma.
Manuel Costa Andrade é natural da aldeia de Carção (Bragança), onde se refugiaram parte dos judeus expulsos na inquisição espanhola (séc. XV) e, mais tarde, pelos portugueses. Os que ficaram, esconderam a sua religiosidade. O ex-deputado do PSD é especialista em Direito Penal e professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

sexta-feira, março 31, 2006

Lei da Rolha

A propósito das crescentes reportagens em jornais e estações de televisão, sobre condições e edifícios de Tribunais, denunciando o estado gravoso, indigno e perigoso para quem neles desempenha funções e para os cidadãos em geral, de que são exemplos mais recentes, o de Gaia que no fim de semana passada ficou inundado nos 3.º e 4.º juízos criminais, obrigando os funcionários a secar os processos com um ventilador ... (ver notícia do JN) e o de Valongo a que se refere o post anterior - entre outros a que já fizemos referência neste blog - é interessante observar a forma como o Ministério da Justiça que tem a responsabilidade de gerir e manter o funcionamento dos edifícios e equipamentos dos Tribunais pretende que tais situações sejam ocultadas, evitando a sua denúncia pública, como enuncia o comentador de um post anterior, numa verdadeira «lei da rolha».
Com efeito, a Direcção Geral da Administração da Justiça remeteu a todos os tribunais o Ofício-Circular n.º 22/2006 onde "lembra" ser o serviço responsável pelo apoio ao funcionamento dos tribunais em caso de ocorrência de anomalias (assaltos, inundações, incêndios), determinando o seguinte:
- os senhores secretários de justiça não poderão autorizar a tomada de imagens no interior do tribunal; e
- os pedidos de tomada de declarações a funcionários de justiça sobre matérias de serviço deverão ser reencaminhados, por fax, para o Secretariado da Direcção da Direcção Geral da Administração da Justiça...
Como muito bem diz o citado comentador, a lógica subjacente a este ofício-circular parece ser a de esconder e manter os Tribunais assinalados sem qualquer honra nem dignidade enquanto órgãos de soberania.
No entanto, como o "Direito Circulatório" só vincula a quem dele está numa relação de dependência hierarquica, nada obsta que o Juiz-Presidente de cada Tribunal, atentas as atribuições que lhe estão atribuídas pela LOFTJ, autorize e mesmo convide os órgãos de comunicação social a visitar e extrair imagens do interior de qualquer dependência dos Tribunais.

Galeria dos Horrores: Tribunal de Valongo

[Prima para ampliar. Extraído de Blog Dizpositivo]
«Sem acessos para deficientes, instalações sanitárias e uma cela usadas como arquivo, escadas a servir de salas de espera e elevador desactivado. Estas são apenas algumas das anomalias detectadas numa vistoria ao Tribunal de Valongo. A câmara exige soluções ao ministério».
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Uma vistoria realizada no passado dia 2 de Março detectou “anomalias graves” no edifício onde se encontra a funcionar o Tribunal da Comarca de Valongo. Em comunicado, a câmara municipal adianta que nomeadamente o acesso, mobilidade e circulação para indivíduos de mobilidade reduzida não está garantida nos termos da lei. O auto da inspecção aponta ainda como falhas a inexistência de instalações sanitárias para o público e o não funcionamento do elevador também destinado ao público. O documento salienta mais à frente que as ditas casas-de-banho e uma das celas para presos estão a ser usadas como depósito/arquivo. As anormalidades detectadas estendem-se ainda à falta de salas de espera, pelo que as pessoas têm obrigatoriamente de se aglomerar nas escadas e espaços de circulação, obstruindo caminhos destinados a evacuação em caso de emergência como por exemplo de incêndio. No piso da cave e do rés-do-chão, os percursos de circulação e evacuação encontram-se mesmo tapados por processos e bens apreendidos, incluindo veículos motorizados com depósitos com combustível. Ainda no âmbito do cumprimento das normas a propósito de hipotéticas evacuações que venham a ser necessárias, o auto da vistoria alerta que o edifício não está dotado de todos os meios de combate a incêndio, designadamente sinalética, iluminação de emergência e encaminhamento das saídas de emergência.A inspecção foi executada pela Comissão Municipal de Segurança, da qual faz parte uma equipa de peritos composta por uma arquitecta e um técnico profissional, e um representante dos Bombeiros Voluntários de Valongo. Em declarações ao JANEIRO, o vereador Miguel Santos da Câmara de Valongo manifestou-se indignado com as condições do Tribunal, garantindo, porém, que as conclusões da vistoria não constituíram qualquer surpresa.
Provisório há 13 anos
O Tribunal da Comarca de Valongo foi acomodado nas actuais instalações de forma provisória em 1993. Um provisório que o autarca Miguel Santos considera como que definitivo pelo facto de “ao longo destes anos não se ter acompanhado a evolução dos tempos e com a agravante de ter aumentado o trabalho e o público”. “A autarquia tem feito um esforço para promover a construção de um novo Tribunal”, garantiu, avançando que inclusivamente foi já cedido um terreno na Nova Centralidade de Valongo ao Ministério da Justiça para a criação de uma nova infra-estrutura. Miguel Santos afiançou ao JANEIRO que o Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça considerou o terreno inadequado, tendo a câmara se disponibilizado a encontrar uma outra solução. “O Ministério tem andado em avanços e recuos apesar da pressão” da edilidade, concretizou.
Ofícios
O presidente do Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça e o juíz-presidente do Tribunal de Valongo foram já contactados pela Câmara de Valongo a propósito dos resultados da vistoria. O vereador Miguel Santos assumiu ter sido enviado um ofício para ambas as entidades juntamente com o auto da inspecção, assegurando que “da parte do referido Instituto chegou uma resposta do seu presidente dizendo não concordar com a vistoria e que o Tribunal tem condições de funcionamento”. A edilidade voltou ontem a enviar nova carta, declarando-se muito preocupada e exigindo que o Ministério da Justiça assuma responsabilidades neste processo. O vereador indicou ainda que no PIDDAC não existe rubrica para o Tribunal, por isso “ainda não é este ano a construção das instalações definitivas”.

quinta-feira, março 30, 2006

Que justiça nos reserva o governo?

Coluna do Leitor d'O Primeiro de Janeiro
Por A. Álvaro de Sousa.
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O projecto de lei do governo sobre política criminal vem dando lugar a muitas e diversas interrogações, quer nos meios políticos, quer nos meios judiciais, não se livrando de preocupantes reservas por parte de analistas destas coisas da justiça.
No seu mais recente escrutínio, o documento foi motivo de aceso debate na Assembleia da República, em cuja discussão se envolveram deputados da oposição, todos eles questionando a bondade da proposta, nela vendo essencialmente preocupações de “suborçamentação consciente”, ouvindo-se que o governo pretende “fazer omoletas sem ovos”.
E como já vai sendo habitual, o ministro da Justiça em resposta à deputada Odete Santos, que na sua intervenção houvera dito que “isto soa a um ajuste de contas [com o Ministério Público] o que corresponde a uma expressão que ouvira na comissão que saiu da boca de um deputado do PS: agora é que isto vai começar a doer”, Alberto Costa melhor não encontrou do que avançar esta coisa mirabolante “o problema é saber quem opta e quem é responsabilizado”, ao que retorquimos: o problema é saber quem suporta as consequências de práticas governamentais que reduzem a segurança das pessoas, que as priva do serviço da justiça, que estimula a actividade criminosa, que, eventualmente, põe a bom recato actividades delituosas de agentes políticos.
Certamente que esta lei receberá o beneplácito da maioria circunstancial existente na Assembleia da República, num exercício de submissão ao governo, e eventualmente com interesse para alguns dos seus membros, que por via dela se sentirão menos “apertados” pelo Ministério Público. Registando-se este triste acontecimento, o actual Presidente da República ou o futuro Supremo Magistrado da Nação, prestará um inestimável serviço à credibilidade da Democracia e à segurança dos portugueses, se usarem o seu direito de veto, devolvendo o documento à Assembleia da República com a mensagem de que não devem legislar no sentido de fomentar a criminalidade em Portugal, nem colocar os portugueses em situações em que, quando vítimas de pequenos crimes, devem avançar para crimes maiores, invertendo a sua posição: passando de vítimas a arguidos, para que agressores e criminosos se riam da angústia dos destinatários dos seus actos.
Este ministro, que já no passado deu provas de não ter jeito para resolver problemas complexos, teima em continuar a dar razão a quantos dele têm essa imagem, não percebendo que a lei deve afirmar que todos os cidadãos têm o direito a que as autoridades assegurem a defesa dos seus bens, físicos e patrimoniais, independentemente da gravidade e do montante em causa, e que os delinquentes ou criminosos, não devem beneficiar de santuários construídos nas leis da República, escorados no frágil substrato de alegada falta de recursos financeiros.
O que se impõe, é que o governo organize a lista de prioridades de forma diferente, assegurando que não faltem os meios financeiros para garantir o respeito pelos direitos dos cidadãos, sacrificando em seu nome, custos em despesas gerais de funcionamento de ministérios, institutos, governos regionais, autarquias locais, obras faraónicas, etc.
O autismo governamental parece impedi-lo de ver e interpretar os sinais recentemente enviados pelos cidadãos, o que se traduzirá numa tragédia democrática.
Com efeito, não precisaremos de uma lei que isente o Ministério Público de cumprir o seu dever de investigar tudo quanto seja crime denunciado ou público. O que faltará, é uma entidade que tome conhecimento e escrutine todos os processos de averiguações que recebam o despacho de “arquive-se” e de todas as participações que, eventualmente, não sejam tratadas atempadamente. Portugal já se confronta com crimes, pequenos e grandes, em quantidade mais que suficiente, não carecendo de medidas legislativas que aumento o seu número e proteja os seus autores.
Quem precisa de se reforçar é o País e a Democracia, não aqueles que das suas leis fazem “tábua rasa”.