Justiça algarvia testa projecto revolucionário
"Tribunal XXI" pretende tornar sistema processual penal português mais "simples e eficaz".
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A curto prazo, a experiência-piloto do projecto "Tribunal XXI" será testada no Círculo Judicial de Faro (CJF). Poupar muito tempo e dinheiro aos tribunais, ganhando mais produtividade e eficiência, são alguns dos objectivos desta solução "revolucionária".
No futuro, os primeiros interrogatórios judiciais de arguidos detidos - que, em certos casos, podem demorar horas - podem ver a sua duração temporal diminuída em cerca de 80%, mediante um sistema de documentação em tempo real, baseado em meios estenotípicos digitais. E este é apenas um dos exemplos do que pode melhorar no processo judicial.
Segundo explicou ao Região Sul/DiáriOnline Algarve Jorge Langweg, juiz-presidente do CJF (que abrange as comarcas de Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António) e autor do projecto, "as últimas indicações disponíveis permitem confiar que a experiência-piloto terá lugar no Círculo Judicial de Faro, a muito curto prazo", sem quaisquer encargos para o Estado e sujeita "a um controlo rigoroso de custos financeiros e de resultados processuais".
O projecto foi apresentado ao Ministério da Justiça, que mostrou interesse em acompanhar e monitorizar a experiência-piloto - tendo já sido constituída uma equipa de acompanhamento -, "de modo a avaliar a possibilidade, termos e condições de integração do módulo de documentação das audiências do projecto «Tribunal XXI», nos seus próprios planos de informatização dos tribunais".
O "Tribunal XXI" consiste "num conceito multidisciplinar de administração de justiça, própria do século XXI, baseado num sistema de soluções informáticas integradas, especificamente desenvolvidas para utilização nos tribunais judiciais". "Trata-se de um projecto revolucionário e original, mesmo no contexto internacional, que permitirá, uma vez em uso, em sistema integrado, aumentar de uma forma impressionante a eficácia e a segurança na administração da justiça, a custos reduzidos, apresentando um potencial de benefícios económicos e sociais importantes para o país", assevera Jorge Langweg. Idealizado pelo juiz há cerca de um ano, foi apresentado no último Congresso dos Juízes Portugueses, realizado no Algarve, em Novembro passado, em paralelo com a assinatura de um protocolo de colaboração entre a Microsoft e a Associação Sindical dos Juízes Portugueses. No congresso, foi exibido um filme demonstrativo das soluções integradas que compõem esse projecto e houve a demonstração, ao vivo, da operacionalidade do sistema de documentação por meios estenotípicos digitais, em tempo real, de palestras.
Tribunais mais rápidos
Para além de acelerar os primeiros interrogatórios de detidos, também os julgamentos, com intervenção do tribunal singular (um juiz) ou colectivo (três juízes), beneficiarão desse sistema de documentação: a gravação digital imediata de toda a prova oralmente produzida em julgamento - em áudio e vídeo, podendo a prova ser transcrita em tempo real ou no dia útil seguinte -, permite que os suportes desses registos fiquem imediatamente disponíveis. No fim do julgamento, os juízes terão a possibilidade, inclusivamente, de proferir a sentença (ou acórdão, após deliberação) imediata e oralmente, uma vez que o sistema de documentação permitirá o registo e impressão da decisão na mesma sessão.
O juiz-presidente do Círculo Judicial de Faro exemplifica com casos algarvios: os juízes de círculo têm de assegurar os julgamentos em nove juízos diferentes (quatro juízos em Faro, três em Olhão, um em Tavira e um em Vila Real de Santo António), onde se deslocam todos os meses, realizando centenas de julgamentos por ano. Por isso, têm datas certas, de cada mês, para estarem num ou noutro tribunal - o que significa, em média, pouco mais de dois dias úteis, por mês, para cada juízo/tribunal. "Por força dessa dispersão territorial, o juiz-presidente do tribunal colectivo apenas pode proferir o acórdão (a sentença de tribunal colectivo) cerca de um mês após encerrar a discussão da causa, ou seja, quando regressa ao tribunal do processo: entretanto, estará nos outros tribunais a realizar julgamentos, a deliberar e a escrever as decisões finais - as quais são caracterizadas, normalmente, por ter um número elevado de páginas", explica Langweg. Ora, com o sistema de documentação das audiências do "Tribunal XXI", "o acórdão poderá ser proferido, na maior parte dos casos, logo após a discussão da causa e subsequente deliberação, ou seja, no próprio dia da audiência de julgamento, na qual foi produzida a prova", ganhando-se "cerca de um mês em cada processo, na fase do julgamento em primeira instância".
Adeus às perdas de tempo
Os cidadãos estão normalmente sujeitos "a perdas de tempo desnecessárias" com múltiplas deslocações a órgãos de polícia criminal, serviços do Ministério Público e tribunais: actualmente, por força da lei, a vítima de um crime pode ter de repetir o relato do sucedido várias vezes (na esquadra, serviços do Ministério Público e tribunal).
Para Jorge Langweg, isso "poderá deixar de ser assim". Com o sistema de documentação integral (vídeo, áudio e por escrito), "conjugado com uma desejável e possível alteração da legislação processual penal, a prova produzida em inquérito poderá passar a ser recolhida e registada em condições que assegurem o carácter livre, fora de qualquer coacção, das declarações prestadas em inquérito". "Nesse sistema processual seria previsível que a maior parte das testemunhas não teria de comparecer em tribunal, bastando o registo do seu depoimento em fase processual anterior", excepto quando o juiz determinasse, em situações fundamentadas, a reinquirição de alguma testemunha em sede de julgamento.
Mas o projecto «Tribunal XXI» tem outras componentes: por exemplo, a gestão de agendas e marcação de audiências; a gestão dos recursos físicos - como as salas de audiências e equipamentos de videoconferência; a elaboração e consulta de bases de dados documentais; bem como partilha documental, com formulários integrados. Por fim, com recurso às mais avançadas soluções tecnológicas em matéria de segurança (autenticações por "Public Key Infrastructure", "smartcards", biometria, assinatura digital e outros), será possível assegurar que os documentos - por exemplo, aqueles que estiverem em segredo de justiça - "apenas sejam visíveis para utilizadores autorizados, ficando esses acessos registados no sistema informático". "Deste modo, será possível identificar quem, quando e durante quanto tempo acedeu ao teor de tais documentos, o que permite limitar o universo dos suspeitos imediatos, em caso de violação do segredo de justiça", sustenta Jorge Langweg.
Ganhos imediatos
Além dos ganhos imediatos para o Estado, "com o menor custo da documentação digital, quando comparada com os gastos elevados inerentes aos actuais meios arcaicos de gravação e transcrição", afirma o juiz, há uma economia imediata para os utentes dos tribunais, "na medida em que perdem menos tempo com deslocações aos tribunais". "Sobretudo, haverá previsíveis ganhos significativos de produtividade e de eficiência da administração da justiça, com evidente expressão económica e que, já a médio prazo, poderão ter reflexos importantes na economia nacional, podendo, inclusivamente, contribuir indirectamente para um aumento do PIB", conclui Jorge Langweg.