Terminaram as competências e os saberes específicas.
A partir de agora, qualquer sociólogo (do Observatório, de preferência) pode ser Juiz. Mesmo que não saiba nada de direito, nem dos princípios de justiça, nem de leis, de métodos de interpretação ou de jurisprudência. Sim, porque neste país, todos sabem julgar os outros, todos emitem as suas pré-sentenças, todos - mesmo os iletrados - querem ser juízes.
Do mesmo modo, trolhas vão ingressar como cirurgiões e cortadores de calçado como arquitectos.
Não surpreende, porque como a mediocridade já existe na classe política, há que estendê-la a todas as funções e profissões (para que não seja tão patente a sua desqualificação) até que o país esteja no ponto de ser entregue de graça aos espanhois, com quem já se estabelecem protocolos para que os filhos dos portugueses nasçam nas suas maternidades.
Tudo isto podia ser uma rábula se não tivesse por base as declarações de alguém que foi nomeado (não eleito) ministro de uma Justiça que não conhece, não quer conhecer, mas que parece quer extinguir, apenas para deixar o seu nome na "história" (o que segundo os últimos adágios, vai conseguir). As reacções estão pela blogosfera e pelos jornais.
Destacamos apenas algumas.
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Dr. João Paulo Vasconcelos Raposo, in Dizpositivo.
«A visão "benigna" é que se trata, meramente, de mais um capítulo na campanha de descredibilização pública dos Juizes que este executivo tem vindo a fazer desde o primeiro minuto da sua actuação. (...). Ora se a ideia é trazer lufadas de conhecimento fresco à acção da justiça faria sentido alargar tal princípio a todas as profissões forenses... Por aí, tenho a certeza, nenhum executivo se atreverá a ir porque tem noção da verdadeira força relativa das chamadas corporações...
(...) A função de administrar a justiça tem, como todas, as suas ferramentas. É essencial que o julgador não tenha só as ferramentas ditas "técnicas". Que tenha formação cultural, humana, cultural, económica. Em síntese que não seja um mero tecnocrata do direito mas um cidadão com uma mundividência tão abrangente quanto possível.Isto é uma coisa. Outra, inteiramente diversa e absurda (a palavra tem que ser esta - absurda) é pensar-se sequer que é possível ser Juiz sem ter uma sólida formação jurídica de base (função para a qual o CEJ tem cumprido cabalmente a sua função mas que terá, necessariamente, que ser complementar da formação académica). O direito é a ferramenta de trabalho primeira do Juiz. Assim sempre foi e assim sempre será. (...)
É preocupante. Não, claro, qualquer alteração social (não é isso que aqui discutimos, sequer vagamente). É preocupante que possam vingar ideias de instrumentalização dos juizes e da sua função, desde o período de formação (aliás, principalmente desde a formação) com fins políticos.É preocupante e é preocupante que,aparentemente, as ideias venham fazendo caminho, que alguém as ouça e reproduza e então se esse alguém é o Ministro da justiça (...).
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«Se é possível nomear para as administrações de grandes empresas participadas pelo Estado (EDP, CGD) gente que não percebe nada daquilo, qual a razão porque não será razoável nomear para magistrados não licenciados em Direito ? :):):)
Sendo necessário, até será possível arranjar um "estudo credível", porventura anónimo e não datado, para ilustrar a bondade da ideia»
[Dr. Francisco Bruto da Costa, in Informática do Direito]
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O Ministro Alberto Costa de cada vez que vai a algum lado leva na manga um truque para surpreender os jornalistas. Serve-se sempre de temas requentados, rebuscados no baú poeirento dos dislates absurdos e por isso arquivados por quem no passado mostrou algum juízo. Ele foram as férias judiciais, depois as carreiras planas nas magistraturas e ontem, mais uma vez, aproveitando uma sessão pública no Centro de Estudos Judiciários tirou da cartola a ideia de abertura das magistraturas a licenciados noutras áreas que não o Direito (referiu-se mesmo, como exemplo e por acaso à Sociologia).O absurdo para qualquer pensante apenas faz sentido no discurso patético dos cábulas, na inalcansável demanda do reconhecimento. Se a este Costa dessem a pasta da Saúde diria certamente que a medicina não haveria de ter a exclusividade na formação dos médicos (absurdo privilégio a que urgiria pôr cobro). E se por percalço do destino algum dia a pasta fosse a das obras públicas, labutaria certamente por abrir aos psicólogos a faculdade da construção de pontes ferroviárias e outras obras de arte.Curioso é verificar que mais uma vez o ministro não tirou nada do próprio caco. Serviu-se de ideia em tempos semeada ao vento pelo sinistro guru da sociologia nacional, o conhecido professor coimbrão BSS. «Palavras para quê ? É um artista português.»Alberto Costa deveria perder um par de horas a ler, um resumo que fosse, da desmontagem sistemática que António Manuel Baptista (O Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência, 2002, Gradiva; e Crítica da Razão Ausente, 2004, Gradiva) fez das charlatãs «teses científicas» e pós-modernaças do tenebroso BSS. Para quem acha que a justiça já bateu no fundo, espere para ver como vai ficar depois de Bernardes Costa».
[Dr. José F.M.Neves, In Joeiro]
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«(...) Essa proposta, a ser verdade, apenas se compreenderá em três cenários distintos:
1º cenário: os «casos» deixam de ser julgados segundo soluções de legalidade estrita, mediante a necessária subsunção jurídica dos factos;
2º cenário: se os (novos) Juízes deixarem de... julgar e decidir;
3º cenário: o Governo assume uma perspectiva insólita de administração da Justiça, de pendor negativístico, em que é profundamente subestimada a função dos tribunais e dos juízes - a ponto de se chegar a afirmar, como em relação a experiência histórica anterior (Galin, apud Pessoa Vaz, Poderes e Deveres do Juiz na Conciliação Judicial, Coimbra, 1976, Prefácio, XLVI), que os Juízes seriam tanto melhor quanto mais analfabetos fossem -.
Como é evidente, este último cenário, verificado logo após a revolução russa (1917), também perspectivava o desaparecimento do Direito e do Estado, tendo estado na origem do estabelecimento do poder soviético sob o controle do partido bolchevique. Mesmo nesse exemplo histórico, os decisores políticos afastaram rapidamente essa perspectiva de administração de justiça (segundo Vischinsky e Yudin, apud Tertebilov, El sistema judicial en la URSS, ed. Progresso, Moscovo, 1977, a págs. 6, 8 e 32 e seguintes).Esperamos, assim, que os «nossos» decisores políticos conheçam a história.
A Bem do Estado de Direito.
A Bem da Democracia».
(Dr. Jorge Langweg, in Blog Lista B Regional Sul ASJP)
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Comentários dispersos
«Se o ministro quis dizer que a formação dos magistrados iria abranger outras áreas académicas, juízes e magistrados do Ministério Público acolhem a ideia de braços abertos. Contactado pelo CM, o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, António Martins, disse que até tem “dificuldade em imaginar um médico, um economista ou um geólogo à frente de um tribunal”. Seria o mesmo, sublinha, que “colocar um licenciado em Direito numa fábrica para componentes de automóveis”.Já o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Cluny, lembra que “o tribunal é um órgão que aplica o Direito”, sendo por isso “absurdo” que esse mesmo Direito seja aplicado por pessoas que não tenham formação jurídica de base» (in Correio da Manhã). .
«Pergunto: Será que se quer que os juízes se limitem a meros aplicadores literais de normas (muitas vezes ilógicas, incompletas e incoerentes entre si?Pergunto: Será bom para a Justiça tal acesso à carreira, bom para o cidadão, prestigiante para o Estatuto do Juiz numa sociedade democrática?Pergunto, por fim: Será que nos últimos duzentos e cinquenta anos nenhum juiz foi capaz de perceber as implicações sociológicas/psicológicas/económicas ou outras de um caso?Concluo: Ser juiz é, antes de mais, aplicar o direito a um concreto caso. O "centro" da função não é a busca incessante da realidade sociológica/psicológica ou económica subjacente. É decidir de direito (com auxílio de todos os saberes)» [João Paulo V.Raposo, in Dizpositivo].
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«Mesmo para julgar matéria de facto, é indispensável possuir formação jurídica. Com efeito, o juízo sobre a matéria de facto faz-se em obediência a critérios jurídicos. Há proibições de prova (são tantas, que nem vale a pena dar exemplos...), há meios de prova a que a lei confere valor especial (prova pericial; documentos com força probatória diferenciada), há meios de prova que só podem ser valorados em determinadas condições (depoimento incriminatório do co-arguido)... Embora vigore o princípio da livre convicção do julgador, sabemos que a nossa lei conforma, de forma muito efectiva, o modo como essa convicção se adquire.Isto para dizer que nem sequer para a tarefa de julgar matéria de facto pode prescindir-se de uma sólida formação jurídica (a propósito, confesso o meu cepticismo relativamente à bondade da admissibilidade do tribunal de juri face ao nosso actual direito processual penal)» [V.S.Santos]
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«Já agora, estou aqui com uma questão de competência internacional, no âmbito de um contrato de prestação de serviço - pacote de viagens.Não haverá por aí um historiador, uma educadora infantil ou, por que não, alguém com o 9º ano que me possa resolver o problema ?» [Anónimo]
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«Quando a nova medida estiver implementada a prova pericial passa a ser outra… “Venha lá um perito jurista explicar ao Tribunal como é que se interpreta e aplica esta coisa chata que vem no artigo ___ do Código ____”» [Dr. Gonçalo Capitão, in Informática do Direito]
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«"Inteligência, integridade moral e ética, carácter e sentido de Estado vão deixar de ser requisitos para o exercício da actividade política em Portugal, podendo a personalidade-base dos senhores políticos incluir outras áreas da natureza humana, mesmo em exclusividade, desde a incompetência às patologias do carácter.A ideia é criar as melhores condições para que haja uma classe enriquecida, dominante e dotada de todos os instrumentos para enfrentar a variedade dos entraves que os regimes democráticos colocam na actualidade. Palavras do ministro primeiro, ontem no final da sessão de abertura de um seminário interno sobre "exploração e manipulação de borregos"». [in Excêntrico]. .
«Curso de Medicina vai deixar de ser critério obrigatório para o acesso ao exercício da medicina. A licenciatura-base dos futuros médicos poderá ser noutras áres do saber, desde a Economia à Sociologia e Direito. A ideia é "criar as melhores condições para que haja médicos enriquecidos e dotados de todas as competências para enfrentar a variedade dos problemas que se colocam na actualidade. Palavras do ministro da saúde ontem no final da sessão de encerramento de algumas unidades hospitalares. E acrescentou: Sem uma licenciatura-base em Sociologia nunca um médico poderá integrar os fenómenos socio-patológicos e os problemas da transmigração que tem de enfrentar dia a dia. Sem a licenciatura em Economia não saberá da importância de usar canivetes nas intervenções cirúrgicas em vez dos caríssimos bisturis. Sem uma licenciatura em Direito, não saberá defender-se da responsabilidade civil extra-contratual por acto médico danoso, etc." [Idem].
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