sexta-feira, novembro 10, 2006

Curiosidades Lusitanas

Por: Luís Ganhão*
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Não faltam advogados «velhos», dos tais que, para o serem, não se submeteram às exigências de selecção que hoje se passou a fazer aos «novos», a apontar a estes e, até por isso, a justificar tais exigências selectivas, a deficiente preparação que trarão das universidades que frequentaram.
Mas não são tais «velhos», afinal, que têm povoado, em número significativo, como regentes de cadeiras ou assistentes das mesmas, as ditas universidades, em particular as privadas?!
E se esses mesmos «velhos», em nome da qualidade da advocacia que dizem defender, aceitassem submeter-se, já não dizemos regularmente, mas de quando em vez, a um «examezito» para ver como vão de conhecimentos, sobretudo num tempo de constantes mutações legislativas?
* Advogado

quarta-feira, novembro 08, 2006

Respigos do dia

Reforma da acção executiva sem resultados
Nos últimos anos, o aumento das acções executivas foi o principal responsável pela subida do volume processual cível nos tribunais de primeira instância. Segundo os dados do INE e do Gabinete de Política Legislativa do Ministério da Justiça, até 2001, a maior percentagem de processos pendentes nos tribunais portuguesas concentrava-se nas acções declarativas, mas a partir de então as acções executivas ganharam predominância. A reforma iniciada no mandato da ministra Celeste Cardona, em 2003, não conseguiu alterar a tendência e a paralisação destes processos intensificou-se, não deixando de aumentar até 2005. De 1996 a 2005, as execuções pendentes registam uma subida constante, enquanto as acções declarativas apresentam uma tendência crescente até 1999, decrescendo desde então (in Diário Económico)
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Traduções e reconhecimentos de assinaturas
O Gabinete de Estudos da Ordem dos Advogados elaborou um parecer sobre a tributação dos reconhecimentos de assinaturas, certificação de fotocópias, autenticação de documentos particulares e termos de tradução realizados por Advogados (in Defensor Oficioso)
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Novo Mapa Judiciário
O sítio do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público disponibiliza no seu sítio as Conclusões do Observatório da Justiça sobre a reforma do Mapa Judiciário.
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Acções do SMMP
No mesmo sítio são disponibilizados os articulados da acção proposta pelo SMMP em representação dos seus associados relativa aos SSMJ. [descarregar aqui em PDF] e da Contestação do Estado à acção proposta pelo SMMP relativa ao congelamento do subsídio de compensação. [descarregar aqui em PDF].

Desconfiança no plano de descongestionamento

Juízes não confiam no plano de descongestionamento dos tribunais
Desembargador António Martins frisa que não basta promulgar leis para melhorar sistema judicial
«O presidente da Associação dos Juízes Portugueses (AJP) [?], o desembargador António Martins, afirmou-se céptico quanto aos resultados do plano de acção para o descongestionamento dos tribunais.
"As medidas anunciadas não vieram resolver os problemas e, como têm sido sucessivamente divulgadas, até parece que se destinam a criar a ilusão de que algo está a mudar", alertou.
Um dia depois de o Governo ter anunciado a conclusão do plano de descongestionamento dos tribunais, António Martins aponta situações comezinhas que entorpecem o funcionamento da justiça.
"Todos os dias, os juízes são confrontados com a falta de instrumentos para trabalhar. Neste momento, por exemplo, têm dificuldades na consulta do Diário da República", que deixou de ser distribuído em suporte de papel. Lembrando que o jornal oficial é "uma ferramenta de trabalho indispensável para os juízes", o presidente da AJP aponta os obstáculos com que estes se defrontam quando acedem à edição digital. "Actualmente, não podem ser feitas pesquisas nem por termos jurídicos, nem pelo histórico. Se um juiz quiser encontrar um diploma de há três meses, só o pode consultar se souber o seu número. De contrário, a pesquisa é inviável", refere. E pergunta: "Como é que o Governo se diz apostado em descongestionar os tribunais se nem sequer facilita ao juiz o acesso à lei que ele tem que aplicar todos os dias?"Ciente de que, "por si, nem as leis, nem os pactos resolvem os problemas dos tribunais", António Martins manifesta também a sua preocupação face à anunciada reorganização do mapa judiciário.
"A reforma não poderá ser concretizada somente com a promulgação de diplomas", avisa, explicando que "para concentrar os tribunais nos NUT [Núcleos de Unidade Territorial] não basta fazer uma lei". "É preciso um investimento significativo para instalar os meios materiais indispensáveis e ainda ganhar o envolvimento de todos os profissionais da justiça", defende.
Plano "cumprido", anunciou o Governo
Em comunicado divulgado na segunda-feira, o Ministério da Justiça anunciou que o Plano de Acção para o Descongestionamento dos Tribunais ficou "integralmente cumprido" com a entrada em vigor do último diploma legal no início deste mês. No entender do ministério, está aprovado "um vasto conjunto de medidas para retirar dos tribunais milhares de processos judiciais que podem ser resolvidos noutras instâncias, ou até mesmo evitados, permitindo assim aliviar a pressão processual sobre as instâncias judiciais". O comunicado enumera as 12 medidas aprovadas, nomeadamente a redução para um mês do período de férias judiciais de Verão e a alteração do "regime do pagamento dos prémios de seguro, por forma que o contrato de seguro apenas produza efeitos quando o prémio ou fracção inicial e os prémios ou fracções subsequentes se encontrem pagos". Esta solução, realça o comunicado, evita "numerosas acções que as seguradoras eram obrigadas a propor, para efectuar a cobrança dos montantes de prémios de seguros relativamente a contratos que continuavam a vigorar, mesmo sem pagamento".Para diminuir o número de processos, o Governo manteve a despenalização da emissão do crime de emissão de cheque sem provisão, alterando o respectivo valor mínimo para 150 euros. Noutro âmbito, foram convertidas em contra-ordenações as transgressões e contravenções ainda pendentes e foi aumentado o valor máximo das dívidas, de 3.740 para 14.963 euros, para cobrança através do "procedimento de injunção". No âmbito deste plano, o Governo concedeu incentivos fiscais a quem desista de acções judiciais durante o corrente ano e declarou extintas todas as acções executivas por dívidas de custas até 400 euros e instauradas antes de 30 de Setembro de 2005».
In Público (ed. impressa)

Artigo de Opinião

QUE ESTADO INDIGNO E CALOTEIRO ESTE!
Por: Luís Ganhão*
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Tendo entrado de escala, como «defensor oficioso», no Tribunal da minha comarca no turno da tarde, 13,30, saí do mesmo, na sequência dum interrogatório judicial a arguidos detidos, cerca das 3 horas da madrugada!
O Meritíssimo Juiz, a Digníssima Procuradora e a não menos digna Funcionária Judicial irão receber os respectivos vencimentos em dia certo e os arguidos pularam de contentes quando foram postos em liberdade, apesar de o MP ter pretendido que aguardassem o desenrolar do processo em prisão preventiva.
Eu, qual «João Semana», não sei quando irei receber os meus honorários fixados conforme a «tabela anexa». A acrescer, de resto, a todos os outros que tenho para receber de 2003, inclusive, para cá, e cuja regularização, propagandísticamente, se diz ser «Já…já mesmo a seguir», sem, contudo, nunca mais ser (agora, da regularização tida como prevista para o início do ano judicial, passou-se a apontar para Janeiro do próximo ano e, mesmo assim, só com respeito aos vencidos até Outubro último!).
Como não aspiro a ser convidado a presidir a qualquer comissão estatal, nem a ser contratado, chorudamente, para dar um qualquer parecer sobre compra de fragatas ou submarinos (tanto mais que, apesar de ter cumprido o serviço militar obrigatório, sempre detestei o cheiro a pólvora), já me ficando satisfeito por ver um modesto arguido a saltar de contente à minha frente e a querer abraçar-se a mim por não ter ficado preso preventivamente, achando (com justeza ou não sobre o meu mérito), que bem o terei defendido, aqui vai:
Que Estado indigno e caloteiro este que, ainda por cima, despudoradamente, me exige a horas certas o pagamento dos meus impostos, sob pena de multa, juros compensatórios, juros de mora, processo executivo, custas e penhora de bens, até me exigindo pagamentos por conta em sede de IRS sobre rendimentos presumidos (mas que ele, como se vê, não me paga e no dia em que o fizer há-de fazê-lo sem juros)!
Impostos que eu, pelos vistos e recordando um próprio ex-primeiro ministro, hoje alto-comissário da ONU, fazendo, certamente, figura de «parvo», venho teimando em pagar pontualmente!
Não há político nenhum neste «jardim à beira-mar plantado» que, nomeadamente, pós-25 de Abril, não encha a boca com a palavra «Liberdade», mas não verdade nunca ela, porventura, terá sido tão mal tratada como agora, nem, quiçá, no tempo de Salazar, tribunais plenários de má memória à parte.
Não me refiro à «liberdade de expressão», ainda que essa, à medida que o grande poder económico se tem vindo a apoderar dos órgãos de comunicação social, já não ser o que era pós-25 de Abril (tema que daria para outra conversa), mas à não menos importante «liberdade física» de cada um de nós, cidadãos, e que se decide, diariamente, nos tribunais, seja por via de um interrogatório judicial, seja por via dum julgamento.
Na verdade, que garantias temos de que será ponderada e decidida tal liberdade com Justiça, num sistema judicial onde os defensores oficiosos, por mais generosos que sejam, se sentem desmotivados por mal e tardiamente pagos, onde juízes correm de sala de audiência para sala de audiência, passando dum simples processo sumário por condução de ciclomotor sem habilitação legal para um de fraude fiscal, onde se interroga e se julga em salas onde se sufoca de calor no verão ou se gela no inverno, etc.?
Não teremos a Justiça que um verdadeiro Estado de Direito exigiria, mas descansemos, que tal como a decadente Roma tinha o Coliseu, nós temos estádios de futebol construídos a peso de ouro com parte dos impostos nossos, ainda que alguns transformados, entretanto, em autênticos «elefantes brancos».
E não vá alguma alma mais piedosa dizer que o governo que agora governa o Estado não tem culpa do que os outros fizeram ou deixaram de fazer, lembro, apenas, que a «nata» dos seus membros, a começar pelo Primeiro-Ministro e Ministro da Justiça, ou já tinham sido ministros de governos anteriores do mesmo Estado ou apoiado, partidariamente, os ditos!
* Advogado

Rir é o melhor remédio (2)

A propósito do comunicado do Ministério da Justiça, a que se fez referência no post anterior, sugere-se a leitura, pela sua pertinência, dos posts inseridos noutros blogues:
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"Propaganda"
«(...) esta é uma forma de fazer propaganda como qualquer outra – antecipar resultados que ainda não existem, apresentando-os de uma forma hiper-optimista - quando e se tais resultados se mostrarem inconsistentes e desanimadores, já ninguém se lembrará destas promessas de “amanhãs que cantam”.
Alguém se lembra de ontem se ter anunciado um amanhã cantante que respondia pelo chavão da “desmaterialização” de processos ? Onde é que ela está ? Não era para ser hoje ?A desmaterialização parece ter-se desmaterializado – e o amanhã cantante ficou previsivelmente para depois de amanhã.
O último diploma, como decorre do comunicado, entrou em vigor há 8 dias – mas já dá lugar ao anúncio de os Tribunais estarem mais libertos de processos... judiciais, o que não deixa de ter o seu lado humorístico. Valha-nos isso».
[Dr. Francisco Bruto da Costa, in Informática do Direito]
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"Descongestionamento"
«(...) várias destas medidas não passam de paliativos temporários, que apelam à abdicação ou desistência do exercício de Direitos pelos particulares. São, aliás, uma declaração indirecta de capitulação do estado, que assim reconhece não conseguir administrar a Justiça cabalmente - administração da Justiça que é uma das suas principais funções e um dos três pilares da soberania. (...).Outras medidas não passam de uma desjudicialização de conflitos, que remete problemas para outras instâncias. Afiguram-se-nos substanciais as medidas arroladas com os números 1, 10 e 11, e de grande utilidade as pequenas medidas arroladas com os números 4, 7, 8, 9.Às vezes, pequenos/grandes detalhes podem ter excelentes ou péssimas consequências práticas, donde se conclui que nem todas as reformas têm de ser grandes reformas, como o será, por exemplo, o futuro alargamento do regime exprimental ora ensaiado.
A última medida - relativa às férias judiciais - constitui um exemplo de desbragada demagogia, considerando os dados já existentes quanto à diminuição da produtividade dos tribunais nesse período. Seria anedótica, se não tivesse prejudicado, gravemente, a organização de trabalho dos advogados e dos solicitadores».
[Dr. Pedro Cruz, in Cruz Advogados]
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terça-feira, novembro 07, 2006

Rir é o melhor remédio

«Tribunais mais libertos de processos judiciais»
Afirma-se no sítio do Ministério da Justiça, aqui, em comunicado de 6/Nov/06.
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Pergunta-se: Onde ? Quando ?
Desde quando os Tribunais Judiciais ficaram libertos de processos por via ...
- da alteração do regime do pagamento dos prémios de seguro ?
- do crime de emissão de cheque sem provisão passar a ser a partir de € 150,00 em vez dos anteriores € 62,35 ? (aliás, só faz aumentar a pendência cível);
- da conversão das transgressões existentes em contra-ordenações (quais e quantas podem ser contabilizadas, em todo o país ??)
- da utilização do procedimento de injunção para exigir o pagamento de dívidas até 14.963,94€ (na sua esmagora maioria, há contestação, com conversão desse procedimento em acção ordinária);
- do regime Processual Civil Experimental ? (funciona apenas em 4 tribunais e não implica redução de processos; o julgamento é a fase mais formal, burocrática e que obriga a um trabalho acrescido para o Juiz);
- da alteração do regime jurídico das férias judiciais ?!?!? (que, em vez de diminuir a pendência em 10%, fez aumentá-la em 20%, como disse o Bastonário da Ordem dos Advogados, no programa «Prós e Contras» ?)...
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Convida-se Sua Excelência o Senhor Ministro da Justiça e todo o seu Gabinete, para verificar in loco qual o significativo aumento do número das acções judiciais distribuídas, qual a pendência existente e quantas acções terminaram por via da desistência ou transacção para poderem usufruir dos benefícios fiscais consagrados no último orçamento de Estado. Talvez, com factos concretos, determine a mudança do título do comunicado para «Medidas de congestionamento: Tribunais mais afundados de processos judiciais»... Pergunte-se aos cidadãos com processos em Tribunal, que os mesmos darão a resposta verdadeira.

domingo, novembro 05, 2006

38 milhões de euros para propaganda

O caso da publicidade na revista ‘Fortune’ e a alegada interferência do Governo num telejornal da RTP lançaram a polémica sobre os gastos em marketing e a forma como o Executivo lida com os media. Quanto a custos em publicidade, o Orçamento prevê 37,9 milhões de euros.
O Governo prevê gastar no próximo ano 37,9 milhões de euros em publicidade, conforme se pode confirmar no Orçamento do Estado para 2007 (OE-07). De acordo com aquele documento, o Governo inscreveu como previsão de gastos na rubrica ‘Serviços Integrados’ (serviços que estão na directa dependência do Governo) um total de 7,355 milhões de euros e na rubrica ‘Serviços e Fundos Autónomos’ (organismos do Estado mas não na directa dependência do Governo) 30,574 milhões de euros, o que dá um total de 37,9 milhões de euros.
O certo é que o termo publicidade presta-se a erróneas interpretações, especialmente numa altura em que o Governo é acusado de usar a propaganda para se promover. Marques Mendes acusou mesmo o Executivo de fazer “sessões de propaganda, própria de um governo sempre em festa, que adora aparecer nas televisões e gastar dinheiro em cerimónias, enquanto a vida dos portugueses de agrava”.
In CM

Pensões vitalícias para os políticos

A despesa pública com as subvenções vitalícias dos titulares de cargos políticos irá ultrapassar os 7,6 milhões de euros em 2007. Com o número de beneficiários a rondar as 382 pessoas, a verba afectada para o próximo ano, como prevê a proposta do Orçamento do Estado para 2007, representa um aumento de 6,4 por cento face aos cerca de 7,2 milhões de euros orçamentados para este ano.
Entre 2003 e 2007, o regime especial da subvenção vitalícia, atribuído a membros do Governo, deputados e juízes do Tribunal Constitucional que não sejam magistrados de carreira desde 1985, já custou aos cofres do Estado 34,6 milhões de euros. Em 2005, o valor das pensões atribuídas a ex-deputados oscilou, segundo dados da Assembleia da República, entre o mínimo de 1127 euros e o máximo de 2819 euros.
O valor mensal da pensão vitalícia dos titulares de cargos políticos é, segundo o n.º 1 do artigo 25.º, da Lei n.º 4/85, calculado “à razão do vencimento base correspondente à data da cessação de funções do cargo em cujo desempenho o seu titular mais tempo tiver permanecido, por ano de exercício, até ao limite de 80 por cento”. O n.º 2 do mesmo artigo precisa que, “quando o beneficiário da subvenção perfaça 60 anos de idade ou se encontre incapacitado, a percentagem referida no número anterior passará a ser de oito por cento”. A mesma lei, no n.º 7 do mesmo artigo, estipula que, “para efeitos do cálculo da subvenção mensal vitalícia é contado o tempo de exercício do mandato de deputado à Assembleia Constituinte, desde a data da eleição”, que ocorreu em 1975.
In CM

Estudo sobre os Advogados

Cerca de metade dos advogados que exercem a profissão inscreveu-se na Ordem entre 2000 e 2006 e a grande maioria pertence ao Conselho Distrital de Lisboa e Porto, revela um estudo do Observatório da Advocacia.
que se traduz num rejuvenescimento acelerado da profissão", refere a síntese do estudo.
Quanto aos 10.006 licenciados em Direito que iniciaram o estágio desde o ano de 2000 e até Junho de 2005, 53,9 por cento ocorreram no Conselho Distrital de Lisboa e 35,1 por cento no do Porto.
Relativamente à distribuição dos estágios por sexos, os dados revelam que o "ritmo de feminização da profissão se mantêm estável nos últimos anos", verificando-se "sistematicamente" que, em cada ano, o número de mulheres que inicia o estágio é "o dobro do número e homens".
A maioria dos licenciados que iniciaram o estágio entre 2000 e Junho de 2005 obteve a sua licenciatura em universidades privadas (41,7 por cento), superando ligeiramente as universidades públicas (40,7 por cento). A Universidade Católica contribuiu para 17,1 por cento dos estagiários nesse período.
Verifica-se também que as cinco universidades que mais contribuíram para o alargamento da profissão, em igual período em análise, foram a Universidade de Lisboa (21,2 por cento), Universidade Católica (17,1 pc), Universidade Lusíada (15 pc), Universidade de Coimbra (11,3 pc) e Universidade Moderna (11 pc).
Quanto à idade dos licenciados no início do estágio, o estudo indica que "mais de um quinto tinha 23 anos e que mais de metade (56,2 por cento) tinha até 25 anos.
Observa-se também que, desde o ano de 2000, 16,8 por cento dos estagiários tinha idade superior a 30 anos ao iniciar o estágio.

sábado, novembro 04, 2006

MJ: Onde páram os 108 milhões ?

O ministro da Justiça extinguiu o Fundo de Garantia Financeira da Justiça (FGFJ) omitindo no orçamento do ministério para 2007 qual o montante que existia nos cofres. A denúncia partiu de Paulo Rangel, ontem no Parlamento, estimando tratar-se de uma verba a rondar os 200 milhões de euros. "Queremos saber para onde vai o dinheiro, e qual o montante exacto", avisou o deputado do PSD", que acusa Alberto Costa de pretender "eclipsar" a verba para a aplicar em despesas correntes. Esta acusação, no entanto, foi completamente ignorada.
O governante garantiu aos jornalistas que nenhuma ilegalidade está a ser praticada. "O dinheiro vai ser aplicado de acordo com a lei", disse.A acusação de Paulo Rangel surgiu durante a discussão do orçamento do Ministério da Justiça (MJ) para 2007, perante as comissões parlamentares do Orçamento e Finanças e a de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. Para o deputado do PSD, trata-se de um "truque" de Alberto Costa "para enfrentar a situação de estrangulamento a que o ministério foi votado", notando: "Os 200 milhões, às tantas, explicam os acréscimos que o orçamento apresenta."Em seu entender, "o ministro vai pegar numa verba, que era a garantia da sustentabilidade do autofinanciamento da Justiça - criada, aliás, por António Costa (quando era ministro da tutela) -, vai desactivá-la e colocá-la ao serviço de despesas correntes". A extinção do FGFJ "aparece no artigo 124.º do orçamento quase com medo e com vergonha", sublinhou o deputado.
Embora Paulo Rangel tenha considerado o assunto "grave", Alberto Costa nem sequer revelou o valor do montante, garantindo apenas que não será gasto em despesas correntes. No entanto, instado pelo DN, o MJ informou que o FGFJ vai ser extinto com 108 milhões nos cofres. Ou seja, com mais oito milhões relativamente à dotação inicial em 2004.
O FGFJ, recorde-se, foi criado pelo Governo PS em 2001, quando António Costa era ministro da Justiça. O objectivo era garantir a sustentabilidade do sistema de justiça a médio e longo prazo através do investimento no mercado de capitais e em fundos imobiliários. Foi então estabelecida uma dotação inicial de 200 milhões de euros. O dinheiro foi posto de lado, mas a iniciativa não chegou a ser regulamentada.
In DN

Ameaças, pressões e intimidações ?

PGR ameaçou demitir-se em caso de novo veto
«O procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, dramatizou ontem a escolha de Mário Gomes Dias para seu vice depois de este ter sido chumbado numa primeira reunião do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP). "Um veto neste nome é um veto na minha pessoa. E daí extrairei as devidas consequências", afirmou.
Segundo os relatos feitos ao DN, a expressão utilizada por Pinto Monteiro para marcar o encontro foi lida por alguns membros do CSMP como uma ameaça de demissão. Os votos que na anterior reunião não foram suficientes para evitar o chumbo desta vez fizeram maioria.
O aviso de Pinto Monteiro foi deixado aos conselheiros na intervenção inicial. Que só não foi a primeira da reunião porque Castro Caldas (membro do CSMP nomeado pelo ministro da Justiça) se antecipou ao PGR e, por sua iniciativa, colocou à consideração uma nova votação sobre o mesmo nome. Um dos presentes recordou ao ex-ministro que a competência para apresentar o nome do vice pertence ao PGR.
Só que o aviso inicial do PGR quanto às consequências de um veto ao nome não caiu bem junto de alguns conselheiros. Pinto Nogueira, procurador distrital do Porto, chegou a afirmar que em 36 anos de carreira no Ministério Público nunca se sentiu "tão pressionado e intimidado". Por sua vez, o advogado João Correia, membro designado pela Assembleia da República, reafirmou a sua oposição ao nome de Mário Gomes Dias. Aliás, este advogado e os procuradores Helena Vera Cruz e João Rato acabaram por não participar na votação. Consideraram que o nome, uma vez vetado, não poderia ser colocado novamente à votação. Esta tese foi defendida por outros membros do CSMP, mas, uma vez que uma maioria aceitou a votação, os que estavam contra acabaram por participar».
In DN

sexta-feira, novembro 03, 2006

Selecção de Notícias

PSD PROPÔS PACTO MUITO MAIS EXTREMO
Do Editorial de António Arnaldo Mesquita, no Público, resulta que o PSD tem insistido junto do PS para promover uma ampla revisão da chamada constituição judiciária.Entre outras alterações, o PSD defendia mudanças na composição dos Conselhos Superiores da Magistratura e do Ministério Público, a alteração do sistema de designação dos presidentes dos Tribunais Supremos e, inclusive, da aferição das responsabilidades disciplinares de magistrados e de advogados, através da criação de comités interprofissionais. Visaria, segundo o mesmo, "neutralizar tentações corporativistas e, por outro, assegurar uma espécie de auditoria externa aos protagonistas do sistema judicial".
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MAIS DOZE TRIBUNAIS DE FAMÍLIA E MENORES
Anuncia o Jornal de Notícias que o número de tribunais de Família e Menores deverá aumentar dos actuais 18 para 30, no âmbito do novo Mapa Judiciário que está em estudo pelo Ministério da Justiça. Do estudo sobre a reforma do Mapa Judiciário, realizado pelo Observatório Permanente de Justiça, a aposta é numa Justiça especializada por áreas judiciais, entre as quais constam as questões da Família e Menores. O documento refere a necessidade de ser criada uma rede de serviços de Justiça multifacetada com pessoal altamente qualificado, mais ampla e com maior capacidade de articulação. "Os tribunais têm de ser especializados, têm de ter gabinetes de psicologia, de mediação/audição familiar, e as próprias instalações precisam de adaptação e de serem mais acolhedoras", indica o documento, que aponta também para uma ausência de formação específica (com outras componentes além da área jurídica) dos magistrados dos tribunais de Família e Menores, a inexistência de assessorias adequadas com formação especializada nas áreas de crianças e jovens e a insuficiente formação dos agentes de polícia criminal.
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CONTINGENTAÇÃO E ASSESSORIA PARA JUÍZES
Ana Lúcia Martins, escreve no Semanário Económico (edição impressa, p.18), que:
"Os tribunais estão de novo em voga.Desta feita não é mais um processo escaldante aproveitado para animar as hostes. Finalmente parou-se para analisar a realidade do seu funcionamento (...)
Em relação aos Tribunais há que analisar então as pessoas que neles trabalham, o que as motiva, que procedimentos têm ao seu dispor para acelerar o andamento dos casos, que formação têm para as tarefas específicas que têm de desempenhar e para as tecnologias que estão ao seu dispor. Sem dúvida que muito se poderá fazer através da informatização dos procedimentos administrativos, mas a verdade é que mesmo o que já existe não é aproveitado. O motivo desse desaproveitamento reside, muitas vezes, na formação que não foi dada aos funcionários dos tribunais para a utilização dessas tecnologias.
Outro aspecto importante a considerar passa pelo volume de trabalho atribuído a cada juiz. Quando são atribuídos à mesma pessoa centenas de casos ao mesmo tempo, e ela/ele tem de se desdobrar entre audiências, saneadores, julgamentos, sentenças e todas as análises de pequenos pedidos que as partes fazem continuamente, algo acaba, inevitavelmente, por ficar para trás. Não é retirada de competência ao juiz, mas este ter um auxiliar, com formação devida, para execução das tarefas menos relevantes. Esta situação é antes a disponibilização deste recurso valioso para execução de actos de maior relevância ao invés de consumirem o seu tempo com questões menos relevantes (...)".

terça-feira, outubro 31, 2006

Leituras do dia

E INSISTE !
Segundo o Diário de Notícias (link), o procurador-geral da República (PGR) deverá insistir, perante o Conselho Superior do Ministério Público, no nome de Mário Gomes Dias para vice-PGR. Existindo dúvidas quanto à admissibilidade de apresentação de um nome já vetado, os membros do CSMP terão que se pronunciar previamente sobre a repetição da votação.
Sobre esta questão, a norma dispõe que... «a nomeação realiza-se sob proposta do Procurador Geral da República, não podendo o Conselho Superior do Ministério Público vetar, para cada vaga, mais que dois nomes». Parece ser claro que dois nomes não corresponde, nem na letra da lei nem no espírito do legislador, à apresentação por duas vezes do mesmo nome. Ou seja, o PGR pode apresentar três nomes e o CSMP só pode vetar dois nomes (diferentes, naturalmente, já que o mesmo nome não pode ser vetado duas vezes).
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INSEGURANÇA... ATÉ NA MÁQUINA DO CAFÉ!
A notícia vem no Correio da Manhã (link). A máquina de café, colocada no Tribunal Judicial das Caldas da Rainha, está a ser vigiada pela PSP, depois de ter sido assaltada três vezes num curto espaço de tempo. Para a juíza-presidente, Isabel Batista, os assaltos demonstram que o edifício “não tem as condições mínimas de segurança”. O primeiro assalto ocorreu quando a máquina estava no átrio da sala de audiências e os ladrões levaram 50 euros em moedas. A máquina foi entretanto mudada para uma zona menos acessível, próxima de gabinetes de trabalho, mas os assaltos repetiram-se: levaram 50 euros em moedas de uma vez e 40 euros noutra. Coisas simplesmente habituais e corriqueiras nos edifícios dos outros órgãos de soberania... ?!

segunda-feira, outubro 30, 2006

Justiça gratuita ou TGV ?

«A concretização da rede ferroviária de alta velocidade - que apenas vai ligar Lisboa a Madrid e ao Porto e esta cidade a Vigo - vai custar 9,1 mil milhões de euros.
Trata-se de uma decisão que vai custar milhares de euros a cada português.
A relação custo/benefício parece mais do que desfavorável. Na Europa existem linhas ferroviárias de alta velocidade com falta de procura, estando a sua sustentabilidade económica em perigo.
A única explicação plausível para a opção do Governo será a necessidade de aproveitar os fundos comunitários (ainda) disponíveis para o efeito.
Este argumento faz lembrar o engodo dos «saldos»: o consumidor compra algo que pode nem precisar, apenas... porque tem desconto.
Neste caso, o Estado Português compra um «brinquedo» caro, no valor de 9,1 mil milhões de euros com, apenas, 22% de desconto (parcela financiada pelos fundos comunitários).
Essa quantia corresponde a 165 anos de justiça gratuita para os portugueses, a custos actuais!
Numa situação de consequências financeiras tão importantes, os portugueses merecem o direito à informação e à escolha.
Referendo já!»
Dr. Jorge Langweg, in Blog de Informação

Recortes de imprensa

«Numa altura em que o Governo apela aos portugueses para apertar o cinto, o Executivo de José Sócrates prevê gastar no próximo ano mais de 95,4 milhões de euros só em estudos, pareceres, projectos e consultadorias.
Segundo a proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2007, o Ministério do Ambiente é o mais gastador, com uma verba de mais de 25 milhões de euros, seguido do Ministério da Ciência com mais de 17,5 milhões» (Correio da Manhã).
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Pacto de Justiça II na calha
«PS e PSD podem vir a realizar nos próximos meses um Pacto de Justiça II, com vista a rever a composição do Conselho Superior da Magistratura e do Conselho Superior do Ministério Público, o que exige a revisão da Constituição. A hipótese de os membros dos dois órgãos passarem a ser indicados pelo poder político, deixando os magistrados de indicar quaisquer nomes, pode ser a alteração mais significativa.
A actual composição do CSM integra sete membros eleitos pela Assembleia da República, cinco pela Presidência da República e outros sete eleitos entre as magistraturas. O artigo 218º da lei fundamental dá dignidade constitucional a esta matéria, razão pela qual as alterações neste domínio tenham de envolver um Pacto de Justiça II entre socialistas e social-democratas com incidência ao nível da revisão da Constituição, de modo a perfazer a maioria de dois terços. Por sua vez, a composição do CSMP integra elementos eleitos pela Assembleia da República, designados pelo ministro da Justiça e escolhidos entre os magistrados, tendo esta matéria igual dignidade constitucional.Uma nova composição do CSM e do CSMS poderá envolver ou a eleição de todos os membros pela Assembleia da República ou a manutenção do poder do Presidente da República de indicar nomes para os cargos» (Semanário).
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«Começa a revelar inquietante falta de imaginação o modo como, de vários ministérios, a desculpa, sempre que alguém mete o pé na poça, é a mesma foi engano, a intenção era avançar por terreno limpo mas o pé fugiu para o charco. Só nas últimas semanas, em razão dos aguaceiros que têm caído sobre a acção governativa multiplicando poças por todo o lado, enganou-se a Presidência do Conselho de Ministros com os aumentos de 6,1% dos vencimentos ministeriais; enganou-se o secretário de Estado das Obras Públicas dando um seu adjunto como requisitado à empresa de consultadoria que embolsou, sem concurso, 275 mil euros para avalizar as portagens das SCUT; e enganou-se o Ministério da Educação ao acabar com as férias de Natal, Carnaval e Páscoa dos professores. Há, pois, esperança para pensionistas, deficientes e doentes: pode ser que, afinal, não tenham que pagar eles a crise como vem na proposta de Orçamento de Estado para 2007. Talvez seja engano. Talvez seja engano a redução dos impostos sobre o património nas operações realizadas através de "off shores" e o IRC dos bancos ser metade do das demais empresas. Talvez até, quem sabe?, sejam engano as novas facturas da água, da electricidade, dos combustíveis, dos transportes, dos passes sociais» (António Pina, in JN)

domingo, outubro 29, 2006

As técnicas da nova propaganda (2)

PUBLICO - 29.10.2006
Olho Vivo - Por Eduardo Cintra Torres (*)
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«No artigo anterior referi três técnicas da nova propaganda: agir através de uma central; encharcamento dos media com "informações" governamentais controlando a agenda (sendo hoje a Lusa fundamental nesta matéria); e abafamento cirúrgico de acções contrárias ao governo "largando" manchetes que desviem a atenção.
Quarta técnica? Centralizar a propaganda no governo e não no partido governamental. Isso "legitima" a propaganda, que assim se confunde com acção política do Estado; além disso, parece-se mais com informação; e cala a oposição, que se limita a comparar o tempo que cada partido aparece na TV pública. Nessa matéria a RTP porta-se bem: os minutos dados a cada partido estão contabilizados. Mas isso é irrelevante: o partido do poder não precisa de mais tempo que os outros porque, concentrando-se a propaganda no governo, há rédea livre para este dominar os noticiários.
O canal de TV do Estado criou, e bem, espaços de debate com representantes de todos os partidos. Mas, se tal facto alarga a democraticidade do espaço público, o reverso da medalha é perverso: o debate fica-se pela partidocracia e, pior, ao ser-lhes dado espaço em programas, os partidos da oposição, do CDS ao BE, calam-se por completo a respeito da propaganda e do controle governamental da informação. Comprada a oposição com a esmola, não só o cidadão é vítima da propaganda como fica desprotegido, pois a oposição não cumpre a sua função ao juntar-se em cartel de silêncio sobre estes temas fulcrais da vida democrática. Sublinho: jornalistas e comentadores independentes, blogues e cidadãos que refilam para o Provedor ou outros media têm feito muito mais contra o controle político da informação do que os partidos da oposição de esquerda e direita!
Quinta técnica da propaganda, comum a vários governos dos últimos anos: usar maliciosamente os media para testar medidas que o governo pretende tomar ou para influenciar o andamento da vida política com mentiras. Entramos aqui no domínio pardo do eticamente condenável ou até do ilícito. Faz-se assim: uma "fonte anónima", que não é mais que um membro do governo ou seu assessor, passa certa "informação" para um media. A notícia sai, dado que a fonte é "amiga" ou é credível para o jornalista. Mas não é: o governo só pretende testar a opinião pública e os lóbis ou forçar certa acção de outrem. Depois, no próprio dia ou no dia seguinte, o governo, através agora de um porta-voz autorizado, "desmente" a notícia que o próprio governo tinha fornecido. Embora os leitores não o entendam, é o governo que se desmente a si mesmo; a credibilidade do media é posta em causa mas o governo sai sem uma beliscadura.
De outras vezes, o governo utiliza a boa-fé dos jornalistas, ou amigos nas redacções, para influenciar maquiavelicamente os acontecimentos. Por exemplo, o Diário de Notícias noticiava a 16.09 num texto sem fontes que "O substituto do polémico José Souto Moura poderá vir a ser Henriques Gaspar". A notícia foi vista como tendo o objectivo de queimar a então já provável nomeação de Pinto Monteiro, cujo nome o executivo, aparentemente, se arrependera de indicar. Poucas horas depois, o ministro da Presidência, P. Silva Pereira, negou a notícia e considerou "especulações jornalísticas" a manchete do DN. O blogue Bloguítica perguntou mais de dez vezes ao DN porque não explicava a origem da notícia falsa. Em vão.
Outro caso. Uma fonte anónima dizia, durante a época de incêndios, que o ministro António Costa estava desagradado com os colegas das pastas do Ambiente e Agricultura por não darem a cara. A notícia foi desmentida por fonte autorizada no mesmo dia. O jornal saiu desacreditado, o ministro conseguiu o que queria.
Ainda outro caso. Como referiu José Pacheco Pereira, no Prós e Contras de 16.10, "assistiu-se à denúncia em directo de uma manipulação jornalística feita a partir do gabinete do ministro António Costa" - enganando o Correio da Manhã com uma notícia falsa para logo ser desmentida - o que fez Costa "fugir para outro assunto muito incomodado. Assim se fazem as coisas" (Sábado, 19.10). No mesmo programa, Fernando Ruas citou um jornalista que lhe disse para fazer como o governo, "que dá a informação e depois comenta".
Uma sexta técnica da propaganda, uma das mais importantes, é a censura. A palavra tem entre nós uma carga exageradíssima, porque se associa censura a fascismo. Ora ela não é exclusiva de regimes autoritários. Há formas de censura em democracia, nem todas ilegítimas (exemplo de censura legal: protecção das crianças). Já para controlar politicamente a informação a censura é das piores faltas de ética. Há quem não conheça os bastidores ou prefira ser ingénuo, justificando os actos de censura por eventuais critérios de "subjectividade" editorial. Mas, nas redacções, nomeadamente na RTP e Lusa, os jornalistas sabem do que falo. Muitos sentem-se humilhados pelo controle político da informação. Alterar o alinhamento dum noticiário ou retirar dele notícias por motivos políticos é censura: por exemplo, fazer quase desaparecer os incêndios durante as férias do primeiro-ministro. Fazer alinhamentos, não segundo critérios editoriais razoáveis, mas por motivos políticos, de forma a diminuir a importância de certos temas, é censura. Aconteceu também durante os incêndios, mas estes dois processos ocorrem com enorme frequência. A queda de popularidade do governo aumenta o seu stress e a pressão sobre as redacções. A nomeação do ex-SIC José Manuel Portugal para partir a espinha à independência do Jornal da Tarde, feito no Porto, e dar certas instruções ao Telejornal em Lisboa já se faz notar. Desde o meu artigo de 20 de Agosto sobre a enviesada cobertura dos incêndios pela RTP, tem crescido a atenção de cidadãos e espectadores pela censura exercida através do alinhamento dos noticiários. O programa de ontem do Provedor (transmitido depois de escrito este texto) resultou de 60 queixas. Eu tenho recebido diversas chamadas de atenção de leitores e de jornalistas para casos de notícias de telejornais da RTP, de alinhamentos, de mudanças de alinhamentos, etc., alguns dos quais inacreditáveis. Mas, felizmente, a sociedade civil está atenta e a agir, para vergonha dos partidos da oposição de esquerda e direita, que venderam o seu dever de oposição por um prato de lentilhas nos noticiários e programas de debate».
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(*) Transcrito a partir da caixa de comentários ao post anterior, a título de colaboração de um leitor.

Política e Justiça

A lei das três seguidas na PGR
«Escrevo isto aqui, porque é um problema de cidadania, e não um problema jurídico.
Como se sabe, o candidato a Vice-PGR, que o PGR apresentou ao Conselho Superior do Ministério Público, foi chumbado por 9 votos contra 8. Vai daí, o PGR prepara-se para tornar a levar a votos o mesmo nome, para ver se desta vez o candidato passa. Se não passar, ainda há uma terceira vez.
Está a acontecer na Procuradoria-Geral o que já sucede em relação aos juízes do Tribunal Constitucional, que são eleitos politicamente pela Assembleia da República.
Porque é isto possível? Sejamos claros: porque há pessoas que, na hora do voto, podem dar o dito por não dito! Porque é que o vira-casaquismo é possível? Não tenhamos ilusões: porque há pessoas que vão ser convencidas a alterarem a sua consciência. Basta ler jornais, basta estar atento aos bastidores.
O que dizer disto tudo? Que é uma pouca vergonha, uma falta de respeito pela dignidade das instituições judiciárias, o grau zero da vida pública portuguesa, o triunfo da política sobre a Justiça.
Quem se prestar a esse papel que tenha presente o que vai fazer: assina com isso a acta de instalação da Comisão Liquidatária do Estado Direito.
É forte não é? Sim, mas nem chega a metade do que eu penso sobre isto, isto com que tenho de conviver.
P. S.-1 Já agora, ó povo ignaro e indiferente, que a tudo resiste e com isto coexiste, sabem o que diz a lei? Eu cito: «a nomeação realiza-se sob proposta do Procurador Geral da República, não podendo o Conselho Superior do Ministério Público vetar, para cada vaga, mais que dois nomes». Parece claro, não é? São três nomes, o Conselho não pode vetar mais do que dois! Pois. Mas na actual PGR acha-se que onde está o que leram, deve ler-se que em vez de serem três nomes para uma votação, pode ser o mesmo nome para ser votado três vezes. É uma habilidade interpretativa, a lei das três seguidas.
P. S.-2 Ainda em tempo: sabem como é que certas pessoas andam a lamuriar-se, pelas esquinas, quanto ao terem de mudar o seu voto? Porque têm medo que, se este Vice não passar, o Governo, retaliando, altere a lei, transformando-o, ao MP, numa Direcção-Geral do Ministério da Justiça. Dizem-me que até já veio nos jornais. É o medo, sim, o medo e a chantagem a funcionarem, em plena democracia! Na hora da próxima votação, eles lá estarão, os «sim, senhor ministro!»
Dr. José António Barreiros, in A Revolta das Palavras

Leituras em dia

Bondage do poder judicial
Um post de A.Balbino Caldeira, a propósito do artigo do Dr. João Correia, face ao cenário de ameaça de partidarização política total dos Conselhos Superiores de Magistratura e do Ministério Público e em cuja "mesma linha de controlo sistémico se insere a proposta de criação de um tribunal penal especial para [casos que envolvam políticos] casos complexos. Mas - sustenta o mesmo blogger - "a intenção de uma intervenção rápida para assegurar o domínio directo e geral da Justiça pela mão negra do poder político sujo mantém-se. No ar fétido dos aparelhos do Estado fuma-se o prazer psicadélico, intragável num estado de consciência democrática, de bondage do poder judicial à vontade soberana do poder político absolutamente imune".
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Um artigo da autoria do Advogado, Dr. João Correia, no DN, de 28.10 que começa por recordar... "Já poucos se lembram do Estatuto Judiciário em vigor desde (curiosamente) 24 de Abril de 1962 (DL 44 278). Já não serão tão pacíficas as motivações de quem quer regressar a uma organização castrense do Ministério Público. Quem defende um "comandante" para o MP ignora a história das instituições. Quem viu na recusa de um vice-PGR crise de autoridade agiu sob impulso".
O Autor alerta para o facto de que "a legitimidade do vice-PGR perante o CSMP e perante os magistrados carece da intervenção deste órgão. Abandonada a nomeação pelo CSMP, enfraquece-se tal legitimidade" e que "os que interpretaram a banalíssima manifestação de vontade negativa de CSMP como um sinal de crise esquecem as reais debilidades actuais do MP, que se viu esvaziado de competências no inquérito criminal. A burocratização da magistratura do MP e a neutralização dos advogados no processo criminal destruíram por dentro, progressivamente, a cidadania, seja no processo criminal seja nos tribunais".
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«É muito difícil lidar com o primarismo." O balanço de cerca de um ano em funções não sorri a Clemente Lima, o juiz que dirige a Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI)». "Estas coisas não podem ser promiscuídas, sob pena de se regressar ao xerifado que por aí campeia." (in DN)
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«O ministro da Justiça, Alberto Costa, manifestou-se, ontem, contra a criação de uma nova repartição territorial no âmbito da reorganização do mapa judiciário. "Não devemos acrescentar mais mapas aos mapas que já existem, devemos reportar-nos a traçados que sejam coerentes com os outros já existentes", sublinhou, ao defender que a nova matriz territorial da organização judiciária seja equivalente às 28 regiões de unidade territorial (NUT III). Ao preferir esta solução - um dos cenários proposto pelo Observatório Permanente da Justiça -, Alberto Costa pretende evitar a profusão de diferentes mapas. "Não devemos complicar", afirmou.
O estudo desenvolvido pelo Observatório Permanente da Justiça, do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, e apresentado ontem, sugere, além da criação de uma nova matriz territorial mais alargada em relação ao actual modelo, o tratamento diferenciado dos litígios de baixa e alta densidade, da pequena e média criminalidade e da criminalidade mais grave e, em especial, da litigação de massa. Entre as inovações propostas surge ainda a extensão, a todo o país, de uma justiça especializada para matérias específicas, entre as quais, questões de família e menores, relacionadas com contratos de sociedade e exercício de direitos sociais, assim como o julgamento da criminalidade complexa». (in JN)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Ficções

«Uma das ficções criadas com a votação do Conselho Superior do Ministério Público, que chumbou o nome de Mário Gomes Dias para vice-procurador, é a de que os nove votos contra seriam, no essencial, a expressão corporativa da reacção dos magistrados do Ministério Público (MP) presentes neste órgão. Alinhados com o respectivo sindicato, sacaram do voto e dispararam contra o alvo intermédio, para atingirem o próprio procurador-geral.
As leituras políticas sobre a justiça estão a sobrepor-se a toda a racionalidade. Os alinhamentos estão radicalizados e cada uma das barricadas tem os respectivos cães de guarda. Dos jornais à blogosfera, tem-se escrito coisas impensáveis por manifesto desconhecimento, mera estratégia de ataque ou pura ânsia de notoriedade.
O Governo, também ele, parece estar a muito pouco de perder a cabeça, se é verdade que tenciona alterar os poderes do Conselho Superior do Ministério Público no sentido de os reduzir a questões teóricas e disciplinares. A ser assim, não é uma reacção saudável da parte do Governo, que, se o fizer, revela ter do acto legislativo uma concepção de mero instrumento de poder, coisa típica das maiorias absolutas com mais soberba ou mesmo de estados totalitários, o que não é o caso.
No meio desta confusão há perguntas simples cuja resposta é essencial: os nove votos foram mesmo só dos magistrados? Em caso afirmativo, correspondeu essa convergência a um alinhamento corporativo para atingir Pinto Monteiro, só porque se trata de um magistrado judicial? As respostas só os próprios as podem dar, mas, desde logo, não é óbvio que os quatro procuradores distritais tenham votado contra. Ou que, caso o tivessem feito, isso ocorresse no diabólico contexto de uma reacção corporativa. Quase todos eles são pessoas muito imbuídas da lógica hierárquica do MP e nada alinhadas com discursos sindicais. Depois, não é óbvio que outros membros do Conselho, incluindo pessoas nomeadas pelo Parlamento, não tenham votado contra. De resto, sem pôr em causa a seriedade do magistrado Gomes Dias, há que dizer que a boa razão para votar contra não está em ter sido indicado por alguém que se queira atacar. Isso seria mesquinho! A boa razão está no facto de ter passado 20 anos a servir profissionalmente o Bloco Central no Ministério da Administração Interna, em que é frequente ser necessário invocar a razão de Estado para fazer coisas nem sempre benéficas para a cidadania. Onde as razões de Estado nem sempre convergem com as razões da justiça. Como se viu no julgamento da vertente portuguesa do famoso caso GAL. E é esta confusão ou ambiguidade que não é admissível na Procuradoria-Geral da República».
Eduardo Dâmaso, in DN

quinta-feira, outubro 26, 2006

Discurso do Presidente do STJ

Discurso da tomada de posse de Sua Excelência, o Presidente do STJ, Juiz Conselheiro Noronha Nascimento
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«Dentro em pouco, vão-se perfazer quarenta anos sobre o dia em que entrei no mundo dos Tribunais.
Quarenta anos recheados de casos, circunstâncias, memórias e sensações que davam para uma obra-prima cinematográfica do neo-realismo italiano.
Desde o réu que morreu à minha frente no julgamento em que ia ser absolvido e que não aguentou a acusação feita, à sobrinha - neta do grande Camilo que, indignada, tentou desforço por o Tribunal não valorar mais a sua palavra do que a palavra de um humilde rural, aos julgamentos dos anos de brasa com o Tribunal resguardado por uma cintura policial, ao momento de violência silenciosa e incomensurável quando (numa inofensiva acção de propriedade) o autor se apercebeu de repente da infidelidade da sua mulher com o próprio réu, à velhinha viúva vestida de luto cerrado que na partilha por morte do marido olhava, com sorriso suave, para os meus 29 anos e me chamava o juiz - menino, à tarde mais dramática da minha vida profissional quando o Colectivo a que pertencia, fechado na sala durante seis horas seguidas, destilou desespero como três homens em fúria para decidir se condenava o réu por homicídio ou não, a 19 anos de prisão ou a nada, por tudo foi passando como o mais comum dos juízes que sentem na pele o desespero de um sistema que também os vai devorando.
Entrei nos Tribunais nos anos 60 a ouvir falar da crise da justiça; logo após o 25 de Abril, nos idos de 75 / 76, a crise da justiça era a manchete frequente dos jornais da época.
Hoje, trinta anos volvidos, o tema continua recorrente o que nos leva a perguntar o que há de estrutural em tudo isso.
A crise da justiça, tal como a percepcionamos relaciona-se basicamente com a morosidade processual que, com outros factores coadjuvantes, conduz hoje ao encharcamento dos tribunais.
Mas disso já nos falava de Bruges, no sec. XV, o príncipe D. Pedro, o das Sete Partidas, na célebre carta que daí enviou para o reino.
A morosidade na resolução do litígio, dizia ele em suma, é a denegação da justiça porque, quando aquele se decide, já o interesse que lhe subjaz desapareceu ou se modificou.
Nos anos 70 o bloqueio do Judiciário entroncava basicamente no desfazamento da orgânica dos Tribunais que a reforma de 78 resolveu parcialmente e no défice visível de magistrados.
Em Fevereiro / 75, quando cheguei ao Marco de Canaveses encontrei uma comarca sem juiz havia mais de um ano, situação que se reproduzia amiúde pelo país inteiro; Mogadouro terá provavelmente batido o record nesse desgoverno de então ao estar - se a memória não me trai - sete anos sem juiz num total de nove.
Hoje as causas são muito outras.
Hoje, o bloqueio judiciário é o produto final e confluente de muitos factores: do aumento generalizado de riqueza subsequente à adesão à União Europeia, do fim progressivo do estado - providência conjuntamente com a tendência permanente em judicializar todos os conflitos que surgem (ao arrepio da recomendação expressa do Conselho de Ministros do Conselho da Europa, de Setembro / 86), da concentração demográfica no litoral fazendo surgir dois mapas judiciários diferentes (o do litoral em panne frequente, e o do interior mais fluído e equilibrado), de reformas processuais falhadas (como a da acção executiva) ou adiadas (como a da investigação criminal) e, por fim, de uma política de concessão de crédito ao consumo que levou longe o endividamento familiar visível nas acções de dívida que canibalizam e corroem totalmente os tribunais representando mais de metade dos processos pendentes no país.
O bloqueio judiciário tem por conseguinte causas estritamente organizacionais e não de legitimação política como por vezes se pretende fazer crer - tal é o corolário a extrair.
Centrar o discurso na legitimação política para avalizar a alteração do modelo que temos é errar o alvo e passar à margem do efectivo saneamento do sistema.
Para superar a morosidade processual, e centrando-nos estritamente no plano de organização e gestão do Judiciário, perfila-se um conjunto de medidas possíveis cujos efeitos acumulados funcionariam provavelmente como o escoamento da barragem.
Em primeiro lugar, há que rever completamente a política de concessão de crédito sancionando (e por vias diferentes) os agentes económicos que não usam mas abusam dos tribunais com o seu crédito mal parado.
Sem isto não vale a pena chorar lágrimas de crocodilo; os tribunais só funcionarão - tenhamos bem essa noção - se houver a coragem política de os limpar do "lixo processual" que tudo entope, agindo a montante deles e regulando o comportamento dos agentes no mercado da concessão de crédito ao consumo.
A fluidez do Judiciário depende, por isso, de uma opção política que se situa antes e fora dos Tribunais, à nossa margem, e que contende com interesses de peso de agentes económicos que instrumentalizam o Judiciário para cobrar os seus créditos formigueiros.
Os Tribunais portugueses começaram a ser vandalizados com este tipo de acções a partir do Verão /87: começou-se com as seguradoras, e seguiram-se os leasings, as sfacs, os cartões de crédito, os telemóveis, a tv cabo, a netcabo e assim sucessivamente.
Se se auscultarem os mapas estatísticos de entradas de processos em Portugal desde 1992 até 2003, concluir-se-á que o aumento de distribuição processual sobe, anualmente, de forma regular e lenta no crime, no trabalho, nos menores, na família, enfim, em tudo o que não é cível; neste, a subida é abrupta atingindo taxas impensáveis e permanece, depois, elevada.
Enquanto na Alemanha, no decénio 88 / 97 o crescimento processual anual se operou a uma taxa que oscilou entre 2 e 5%, entre nós andou pelos 8 / 9%.
Na França, nos 35 anos anteriores a 2000 o cível aumentou três vezes e o crime quatro vezes; em Portugal, as entradas cíveis foram em 1992 de 266.123 processos e cinco anos depois (em 1997) cifravam-se em 485.210, ou seja, num aumento de cerca de 80% para o qual nenhum Judiciário está preparado.
A estabilização de distribuição processual nos anos seguintes nenhuma melhoria induziu porque, sem uma abordagem estrutural de fundo, a doença não só se manteve como se agravou.
Quando, em Maio / 98 participei em Paris em reuniões preparatórias de um grande colóquio que aí teve lugar em Janeiro / 1999 e contei o que se passava entre nós com a colonização do Judiciário pelas operadoras de telemóveis com dezenas de milhares de acções cíveis entradas em juízo em pouco tempo (era, à época, o que estava na moda), os juízes franceses e alemães presentes perguntavam-se, espantados, como foi possível tal acontecer sem o poder pedir contas sequer aos agentes económicos, autores desse flop.
Com tudo isto misturado, temos hoje (principalmente no litoral onde a concentração demográfica é intensa) tribunais que funcionam a velocidades incomensuravelmente diferentes.
Temos, nomeadamente, nas grandes Lisboa e Porto, juízos cíveis com 10/12 mil processos que se tornam pouco menos que incontroláveis para magistrados e funcionários; e temos varas cíveis - em cujos processos a politica de concessão de crédito pouco ou nada se reflecte - que tendem cada vez mais a agilizar rapidamente as sentenças finais.
São das varas (ou tribunais de circulo correspondentes) que partem em regra os recursos que chegam ao Supremo; e se alguns se reportam a processos que demoram anos temos muitos outros que são surpreendentemente rápidos fugindo ao estereótipo que a representação jornalística transmite publicamente, demandando não muito tempo entre a sua entrada em juízo na 1ª instância e a decisão final neste Supremo (cfr., revista 3541/05 entrado nas Varas Cíveis de Lx. em Janeiro/03 e decidido no S.T.J. em Janeiro/06; revista 3694/05, entrado nas Varas Cíveis de Lx. em Abril/02 e decidido no Supremo em Janeiro/06; revista 3759/05, entrado em Ponta Delgada em Outubro/03 e decidido no Supremo em Janeiro/06; revista 4033/05, entrada em V.N.Gaia em Maio/02 e decidida no Supremo em Fevereiro/06; revista 3843/05 entrada no T. Família do Porto em Setembro/04 e decidida no Supremo em Fevereiro/06; revista 4087/05, entrada em Braga em Abril/03 e decidida no Supremo em Fevereiro/06; revista 4338/05, entrada no T. Marítimo Lx. em Novembro/02 e decidido no Supremo em Março/06; revista 173/06 entrada em V.N.Gaia em Dezembro /02 e decidida em Março /06, etc., etc.)
É nesta encruzilhada de interesses divergentes que se coloca o problema da contingentação.
Não vale a pena pensar, sequer, na contingentação se não se resolver previamente o excesso do "lixo processual", porque a pendência excessiva inutiliza a racionalidade que está associada à contingentação.
Esta foi pensada como barómetro das necessidades da orgânica dos tribunais e, simultaneamente, como índice da produtividade do juiz a partir de uma distribuição racional de processos.
Daí que seja fácil fazê-la e levá-la à pratica num conjunto alargado de Tribunais com processos homogéneos na sua tramitação: tribunais de recurso, antigas corregedorias, alguns tribunais de circulo, juízos e varas criminais e, talvez, varas cíveis.
Mas naqueles outros onde pendem milhares e milhares de acções de dívida e nos tribunais de competência genérica com carga processual elevada e heterogeneidade procedimental, a contingentação é pouco menos que uma miragem numa noite de Verão.
A prova disto temo-la nós: em 2001, a solicitação ministerial, uma empresa conseguiu fixar quadros de contingentação para os processos criminais pendentes em Portugal concluindo, aliás, que todos os tribunais criminais e secções criminais dos tribunais superiores tinham processos em excesso numa percentagem que oscilava entre os 5 e os 22%; a seguir, o Observatório da Justiça não conseguiu contigentar o cível nos tribunais onde se reflectia a selva desregulada das acções de dívida.
Se nos lembrarmos ainda que estudos feitos no estrangeiro sublinham que o excesso de processos acima dos 20 % em relação ao máximo aceitável provoca diminuição de qualidade do serviço, teremos bem a dimensão da gravidade do monstro que nos inferniza.
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Em segundo lugar lidamos, hoje, com um mapa judiciário mais que ultrapassado.
A desertificação do interior e o excesso demográfico do litoral criaram dois mapas diferentes: o do litoral com tribunais sobrecarregados e frequentemente em panne; o do interior com tribunais funcionando, em regra, equilibradamente.
A litoralização da população não é um facto recente: começou no séc. XVl com a chegada do milho americano que, pelo seu alto valor nutritivo, permitiu o aumento exponencial da população mas só podia ser cultivado onde houvesse muita água, e agravou-se nos sécs. XVlll e XlX com as novas concepções de defesa militar e o abandono da linha dos fortes fronteiriços.
A manutenção do xadrez orgânico actual parece-nos impensável: torna-se essencial criar uma nova unidade geográfica - padrão que substitua a antiga comarca, mais ampla, mais abrangente que permita uma melhor gestão na mobilidade e disponibilidade do juiz sem ofender o princípio do juiz natural.
Qualquer mapa judiciário tem que levar em conta dois factores estruturantes: em todo o território, a mobilidade demográfica que as recentes vias rápidas permitiram; nas áreas metropolitanas das grandes cidades, as questões e os estrangulamentos urbanísticos que elas geram.
O primeiro factor (mobilidade demográfica) surge-nos bem expresso em alguns indicadores dos últimos censos; basta pensar, entre outros exemplos, que no litoral noroeste se assistiu a um deslocamento populacional inverso (isto é, do mar para o interior) ao longo das linhas fluviais (vales do Sousa, Tâmega e Minho) e que, em conjugação com outros factores, ajudam a explicar o aumento nessas áreas da criminalidade perigosa e violenta (cfr. o Mea Culpa de Amarante e os gangs do Vale do Sousa).
O segundo factor impõe que se responda a vários perguntas: se se pretende agrupar ou dispersar os tribunais no interior da urbe, se ficam no centro ou na periferia da cidade, se a cidade é geometrizada (como Lisboa) ou não (como o Porto), se o acesso aos tribunais é fácil ou não, se há metropolitano ou não, se as linhas de água se transpõem rapidamente ou não.
Mas pensar o mapa dos Tribunais implica também repensar os julgados de paz.
Estes só fazem sentido se forem complementares da justiça clássica, desritualizando o processo, apressando a decisão e embaratecendo o custo global do sistema.
É isso que não existe porque os julgados de paz estão enredados num nó górdio que ninguém desata.
Para se tornarem eficazes e mais baratos, os julgados de paz devem ter competência exclusiva em determinadas matérias; mas isso só é possível se forem geridos por um órgão com composição orgânica independente; porque o não são, permanecem com competência "delegada", presos a processos que se alongam porque acabam por ser decididos em recurso mais acima.
O cabodas tormentas só se dobrará quando os julgados tiverem competência própria e exclusiva, complementar da do tribunal comum, e o seu quadro de magistrados for gerido pelo C.S.M..
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Porque a morosidade processual é, como dissemos, o ponto confluente de muitas causas conjugadas, sanear as acções de dívida e reformular o mapa dos tribunais não é de certeza bastante.
Mas se, concomitantemente, se administrativizar a resolução dos conflitos de jurisdição e competência através do colégio de presidentes de tribunais de 2ª instancia (conflitos que são um cancro no labirinto garantistico do nosso modelo), se implementar nos grandes tribunais e nas grandes circunscrições a figura do juiz - presidente, responsável perante o Conselho, com poderes efectivos de gestão, gerindo os espaços e o equilíbrio de pendências processuais e - por que não? - tentando obter uniformização nas decisões processuais interlocutórias, se abandonar o quadro de juízes auxiliares e se apostar numa bolsa de juízes para todo o país mas em condições diferentes das actuais porque assim ninguém está disposto a ser nómada, se negociar protocolos de distribuição de risco nas indemnizações extra - contratuais (como se faz em países do centro da Europa), se optar pela formação especializada de magistrados como condição prévia da sua colocação em determinados tribunais e, em alguns casos, da sua promoção, se regressar o assento com força obrigatória através de um modelo que permita accioná-lo também pelos presidentes das Relações em caso de divergências importantes logo na 1ª instância e como salvaguarda imediata da segurança jurídica, estamos convictos de que o salto qualitativo do Judiciário português será grande.
A reforma da acção executiva (de inicio bem pensada e depois mal executada) serve-nos de exame de consciência.
Enquanto ela passou pelas mãos do juiz, os processos andavam devagar mas andavam e os credores recebiam; hoje, as acções executivas estão literalmente bloqueadas, só os grandes credores recebem enquanto o cidadão comum nada obtém e surgiu uma nova profissão forense na desconfiança criada pelo panorama geral da crise económica do país.
O fracasso da acção executiva não entronca em questões de legitimidade que a presença ou ausência do juiz dá ou retira; entronca em razões de figurino organizacional que faliu patentemente.
A conformação constitucional estruturante do poder judicial deve-se aos pais fundadores da 2.ª República.
Foram eles, foram os políticos que emergiram com o 25 de Abril -que tinham visto com os seus próprios olhos como o antigo regime condicionava e subalternizava os tribunais e podia préordenar a investigação criminal - que deram início à formação do modelo que, substancialmente, ainda hoje se mantém.
O processo de gestação, formação e legitimação política do Judiciário português iniciou-se logo em Junho / 74 com o diploma que fixou a forma de designação por eleição dos presidentes dos tribunais superiores (democratizando por inerência o antigo o Conselho Superior Judiciário) e findou em 1984, com a aprovação do primeiro ETAF, criando os tribunais administrativos e enterrando de vez as concepções monistas de raiz napoleónica. Pelo meio foram surgindo, entre o mais, o novo Tribunal Constitucional, o novo Conselho Superior da Magistratura e o novo M.º P.º.
As razões teórico - jurídicas que legitimaram as opções que os pais fundadores assumiram, ainda permanecem válidas nos dias de hoje.
Mau grado isso tem-se assistido a uma deslegitimação larvar e surda dos tribunais a que não escapa mesmo este Supremo, cúpula geral do sistema; processo filtrado, com frequência, em notícias vindas a lume na comunicação social e que só podem ser lidas como a mensagem criptada de poderes facticos.
Desde o acórdão deste Supremo (recurso penal n.º 3250/04) que recusou ao arguido (que assassinara a mulher) a atenuação especial da pena que ele pretendia, por "negligência culinária" ou por saídas a sós dela, condenando-o tabelarmente a 14 anos de prisão, e apareceu na imprensa exactamente ao contrário como se tivesse havido atenuação extraordinária e o Supremo estivesse fora do mundo; até ao acórdão que usou o conceito jurídico de "bom pai de família", oriundo do direito romano, usado comummente na ordem jurídica europeia e que varre áreas tão diversas como a definição da culpa nos acidentes de viação ou a origem de servidões prediais, e que foi apresentado mediaticamente como reflexo de uma visão quase neo - fascista da sociedade - tudo serviu para descredibilizar, deslegitimando, provavelmente para que a seguir se "legitime", credibilizando, uma nova estrutura constitucional diferente daquela que os pais fundadores nos legaram.
Só assim se podem compreender as referências amiúde feitas a uma nova forma de acesso aos tribunais superiores, centrada na carreira plana, e vedada aos juízes de 1.ª instância.
Apenas a Itália conhece a carreira plana, instituída logo no pós-guerra como reforço da independência e da inamovibilidade dos juízes.
Para reforçar a independência, adoptou-se a progressão profissional automática dos magistrados tão-só por antiguidade; para reforçar a inamovibilidade, desligou-se a categoria da função, possibilitando-se aos juízes promovidos aos tribunais superiores que continuassem a julgar na instância de onde partiriam.
A Itália teve, pois, conselheiros da Cassazione a julgar em 1.ª instância porque queriam; mas nunca a carreira plana lhes impediu o acesso aos tribunais superiores na progressão normal da profissão.
A carreira plana tem virtualidades aproveitáveis na conformação e gestão da orgânica dos tribunais; mas daí até justificar uma ausência de carreira para os juízes vai todo o tamanho do mundo.
Será pois - e é sinceramente esta a nossa convicção - sobre o modelo desenhado pelos políticos da primeira geração da 2.ª República, que devemos trabalhar para que a justiça portuguesa melhore e se torne um sector de referência da sociedade portuguesa.
Para que o saneamento efectivo dos nossos tribunais tenha sucesso.
Para que os direitos dos cidadãos sejam definidos em tempo útil como o impõem as Convenções internacionais dos direitos humanos.
E para que ninguém se sinta, afinal, filho de um deus menor.
Luís António Noronha Nascimento.
In STJ