sexta-feira, setembro 30, 2005

Ensaios com lucidez

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UM CONTRA TODOS
POR LUÍS DELGADO, DN, 29.SET.2005
«O slogan presidencial de Sampaio replicava o dos três mosqueteiros "Um por todos." Adaptado à realidade, e a este Governo, a mensagem inverteu-se: "Um contra todos!" Não há sector, classe profissional, faixa etária e social que não esteja em protesto aberto contra o Executivo, e ele, que não quer ouvir, ver, escutar, mantém-se intransigente, isolado e convencido (extraordinário, como caso de análise psicológica e política) de que tem razão.
Todos discordam, por uma ou outra razão, com ou sem ela, mas o Governo, omnisciente, na glória e nas alturas, nem os ouve e acredita piamente, só por uma questão de fé cega, estar certo, correcto, e que centenas de milhares que se manifestam, e quem não o faz mas pensa do mesmo modo, é que estão manipulados.
Casos emblemáticos:
1) Militares tinham sistema social e médico próprio, que vai ser integrado no geral e são obrigados a reformar-se mais tarde. Razão do Governo: todos são iguais. Erro. A instituição militar é e tem de ser diferente, é opção de vida em nome do País. É treta serem iguais aos outros. Não são e ainda bem. É não perceber nada do que significa um pilar de soberania como este, que exige, em última análise, o sacrifício da vida. Acontece com outras profissões, com excepção da Polícia? Aplica-se a esta a mesma base de pensamento. Não se deve mexer na idade da reforma - era o que nos faltava ser "guardados" por homens e mulheres de 60 anos - e também se exige deles o maior de todos os sacrifícios. Portugal não é diferente de outros países europeus, onde essa distinção existe, e faz todo o sentido.
2) Juízes sendo órgão de soberania independente, têm de ser tratados como tal. Ou aceitamos, como princípio básico, que não estamos num Estado de classe única, sem distinções, como é a democracia, ou então o modelo da Coreia do Norte serve bem. Por muito que se discorde da justiça em Portugal, estes homens e mulheres têm de ser tratados de uma forma diferente - que não significa abusiva ou acima da razoabilidade - porque exercem um magistério único.Outros exemplos poderão ser dados.
O que está mal, na verdade, é a ideia do nivelamento igualitário. A justiça social não é igualizar, mas sim saber distinguir. É, se não se importam, o princípio fundamental de uma democracia».
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QUEM ESTÁ MAL ?
POR LUÍS DELGADO, DIÁRIO DIGITAL, 25.09.2005
«Quando os militares, os magistrados, todas as forças policiais, os funcionários públicos de todas áreas, a classe média, os empresários, os agricultores, os reformados, e tantos e tantos outros portugueses estão contra o Governo, e manifestam-se nas ruas, sem parar, num ciclo que há muitos anos não se via, quem é que está mal? O Governo, sozinho e isolado, e a perder a sua base de apoio, ou estes milhares de portugueses?
A isto chama-se autismo político e, no mínimo, acabará por isolar completamente a maioria e o Governo. Tantos contra tão poucos, e todos a pensar da mesma forma sobre um, é a prova acabada, o sinal perfeito, a marca indelével, de quem está mal, deslocado, obstinado, descentrado, autista e isolado.
O Governo, como todos os que já passaram por isso, e que tiveram a devida lição, acha, no seu saber omnisciente, que ele é que está no caminho certo, e todos os outros são manipulados e não têm razão. É o sintoma que faz parte da doença.
Pena é que este PR já não tenha nenhuma capacidade de decisão em relação ao Executivo. Mas outro chegará e avaliará a situação. Um Governo de maioria não pode agir contra a maioria, e fazer de conta que ela não existe. Se fosse apenas uma corporação, ou duas ou três, ainda vá. Mas são todas, sem distinções, e com o mesmo tipo de queixas. A continuar assim, o PS, a maioria e o Governo vão acabar mal».

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