Achados arqueológicos na Livraria da Coimbra Editora
A remodelação da Livraria Coimbra Editora, implantada junto à Cerca e Portas de Almedina, em Coimbra, desvendou importantes tesouros do passado, mas um achado inédito - um fosso do sistema defensivo da cidade - pôs em confronto o Instituto Português de Arqueologia (IPA) e o Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar). Opiniões distintas quanto à conservação e importância desse achado, por parte de responsáveis destes institutos, têm gerado há alguns meses um certo impasse no avanço das obras no edifício.
Presumivelmente do período medieval, essa vala escavada na rocha, que ainda conserva uma profundidade de cerca de dois metros e meio, é um achado único em Coimbra. Embora apareça vagamente referenciada em documentos antigos, nunca tinha sido encontrada.
Para o IPA, sendo o fosso parte integrante do sistema defensivo de Coimbra, e encontrando-se este classificado como monumento nacional desde 1910, através da Cerca e das Portas de Almedina, deverá ser preservado e musealizado. Mas o Ippar, que tutela os monumentos nacionais, a 12 de Novembro último deu parecer favorável à reformulação do projecto de arquitectura do dono do imóvel, autorizando o "desmonte de um trecho do fosso, salvaguardando o princípio da conservação pelo registo científico", consagrado no Decreto-Lei 107/2001. Na prática, isso consistiria na destruição de uma parte significativa desse troço de fosso com a colocação no piso da cave de uma espécie de tampa amovível para que uma pequena parte pudesse ser observada, segundo explicou à Agência Lusa o arquitecto responsável pela remodelação, João Marta.
Helena Moura, arqueóloga da Extensão de Pombal do IPA, discorda dessa opção, porque a legislação que protege o património só admite a sua demolição "se for indispensável". E entende que também a concretização daquele projecto para a livraria não é de valor superior ao interesse patrimonial em causa.
Perspectiva diversa parece ter o director regional de Coimbra do Ippar, José Maria Henriques, que, em resposta por escrito às questões colocadas pela Agência Lusa, observou ser este tipo de fossos "estruturas defensivas medievais frequentes, mas, como é natural, encontram-se hoje em dia entulhadas", ou seja, ocultas no subsolo. "De qualquer forma, constata-se a existência de um sistema semelhante no Mosteiro da Flor da Rosa (Alentejo), que se encontra escavado", acrescenta. "Novos dados surgidos entretanto, relativos à importância do troço do fosso, encontram-se em análise e estudo" no Ippar.
"É um monumento medieval de inegável valor que não se conhecia, classificado como monumento nacional", alega a arqueóloga do IPA, frisando que a nível nacional praticamente não se apresentam outros do tipo. Helena Moura encontra também um acrescido interesse na sua preservação e musealização pela importância histórica de Coimbra, uma antiga capital do reino, e no facto de estar a preparar uma candidatura à UNESCO para a classificação como Património da Humanidade.
Na mesma linha de pensamento, o arqueólogo Costa Santos, contratado pela titular da obra, a Coimbra Editora, afirma estar-se perante "uma estrutura inédita em Coimbra, não conhecida em termos arqueológicos". Por esse facto optou por colocar à consideração do IPA e do Ippar a decisão sobre a "sua preservação ou musealização".
Tesouros do passado
Além do troço do fosso, as obras de remodelação da livraria desvendaram no subsolo da cave outros tesouros do passado, considerados de grande importância para o conhecimento da ocupação da cidade de Coimbra.
"Naquela cave conseguimos percorrer a história de Coimbra, desde o século VIII até à actualidade", comentou Costa Santos. Aí foram descobertos antigos silos árabes entulhados com cerâmicas e moedas de várias épocas, e ainda fragmentos de um alcatruz cerâmico de nora, que pela primeira vez testemunha a existência das azenhas que cronistas norte-africanos diziam existir no vale do rio Mondego.
Várias peças cerâmicas de uso doméstico, algumas delas do período árabe, foram recolhidas quase intactas, e os arqueólogos admitem que ainda será possível a reconstituição de outras mais através da colagem de fragmentos. Três dos quatro silos encontrados foram destruídos durante as obras, após o seu registo científico, uma acção que Helena Moura diz "compreender, por não possuírem interesse arquitectónico". O silo conservado, semi-incrustado numa parede do edifício, será futuramente convertido em suporte expositivo da livraria. Igualmente a parte de uma das torres das portas da cidade aí descoberta, que Costa Santos julga datadas do século XIII ou XIV, ficará visível aos utentes da livraria, em consequência das adaptações ao projecto original de remodelação.
Ao longo dos trabalhos e face aos achados arqueológicos, o projecto inicial de remodelação do edifício da livraria sofreu outras adaptações, para tornar possível a sua integração. "A ideia não é só ficarem visíveis ao público, mas musealizar esses achados arqueológicos", através de descrições, desenhos, fotografias, "funcionando em integração com a livraria, e valorizando-a", explicou João Salgado, administrador da Coimbra Editora. E a riqueza dos achados é de tal dimensão que a Coimbra Editora está já a pensar em lhes dedicar uma ou duas publicações.
Presumivelmente do período medieval, essa vala escavada na rocha, que ainda conserva uma profundidade de cerca de dois metros e meio, é um achado único em Coimbra. Embora apareça vagamente referenciada em documentos antigos, nunca tinha sido encontrada.
Para o IPA, sendo o fosso parte integrante do sistema defensivo de Coimbra, e encontrando-se este classificado como monumento nacional desde 1910, através da Cerca e das Portas de Almedina, deverá ser preservado e musealizado. Mas o Ippar, que tutela os monumentos nacionais, a 12 de Novembro último deu parecer favorável à reformulação do projecto de arquitectura do dono do imóvel, autorizando o "desmonte de um trecho do fosso, salvaguardando o princípio da conservação pelo registo científico", consagrado no Decreto-Lei 107/2001. Na prática, isso consistiria na destruição de uma parte significativa desse troço de fosso com a colocação no piso da cave de uma espécie de tampa amovível para que uma pequena parte pudesse ser observada, segundo explicou à Agência Lusa o arquitecto responsável pela remodelação, João Marta.
Helena Moura, arqueóloga da Extensão de Pombal do IPA, discorda dessa opção, porque a legislação que protege o património só admite a sua demolição "se for indispensável". E entende que também a concretização daquele projecto para a livraria não é de valor superior ao interesse patrimonial em causa.
Perspectiva diversa parece ter o director regional de Coimbra do Ippar, José Maria Henriques, que, em resposta por escrito às questões colocadas pela Agência Lusa, observou ser este tipo de fossos "estruturas defensivas medievais frequentes, mas, como é natural, encontram-se hoje em dia entulhadas", ou seja, ocultas no subsolo. "De qualquer forma, constata-se a existência de um sistema semelhante no Mosteiro da Flor da Rosa (Alentejo), que se encontra escavado", acrescenta. "Novos dados surgidos entretanto, relativos à importância do troço do fosso, encontram-se em análise e estudo" no Ippar.
"É um monumento medieval de inegável valor que não se conhecia, classificado como monumento nacional", alega a arqueóloga do IPA, frisando que a nível nacional praticamente não se apresentam outros do tipo. Helena Moura encontra também um acrescido interesse na sua preservação e musealização pela importância histórica de Coimbra, uma antiga capital do reino, e no facto de estar a preparar uma candidatura à UNESCO para a classificação como Património da Humanidade.
Na mesma linha de pensamento, o arqueólogo Costa Santos, contratado pela titular da obra, a Coimbra Editora, afirma estar-se perante "uma estrutura inédita em Coimbra, não conhecida em termos arqueológicos". Por esse facto optou por colocar à consideração do IPA e do Ippar a decisão sobre a "sua preservação ou musealização".
Tesouros do passado
Além do troço do fosso, as obras de remodelação da livraria desvendaram no subsolo da cave outros tesouros do passado, considerados de grande importância para o conhecimento da ocupação da cidade de Coimbra.
"Naquela cave conseguimos percorrer a história de Coimbra, desde o século VIII até à actualidade", comentou Costa Santos. Aí foram descobertos antigos silos árabes entulhados com cerâmicas e moedas de várias épocas, e ainda fragmentos de um alcatruz cerâmico de nora, que pela primeira vez testemunha a existência das azenhas que cronistas norte-africanos diziam existir no vale do rio Mondego.
Várias peças cerâmicas de uso doméstico, algumas delas do período árabe, foram recolhidas quase intactas, e os arqueólogos admitem que ainda será possível a reconstituição de outras mais através da colagem de fragmentos. Três dos quatro silos encontrados foram destruídos durante as obras, após o seu registo científico, uma acção que Helena Moura diz "compreender, por não possuírem interesse arquitectónico". O silo conservado, semi-incrustado numa parede do edifício, será futuramente convertido em suporte expositivo da livraria. Igualmente a parte de uma das torres das portas da cidade aí descoberta, que Costa Santos julga datadas do século XIII ou XIV, ficará visível aos utentes da livraria, em consequência das adaptações ao projecto original de remodelação.
Ao longo dos trabalhos e face aos achados arqueológicos, o projecto inicial de remodelação do edifício da livraria sofreu outras adaptações, para tornar possível a sua integração. "A ideia não é só ficarem visíveis ao público, mas musealizar esses achados arqueológicos", através de descrições, desenhos, fotografias, "funcionando em integração com a livraria, e valorizando-a", explicou João Salgado, administrador da Coimbra Editora. E a riqueza dos achados é de tal dimensão que a Coimbra Editora está já a pensar em lhes dedicar uma ou duas publicações.
Fonte: Público (edição impressa / Centro)
.
Tribunal decidiu que C.M.Oeiras praticou despejo ilegal
Dois meses depois da Câmara Municipal de Oeiras ter despejado a Associação Popular de Paço de Arcos (APPA) do edifício onde estava instalada há mais de duas décadas, o Tribunal Cível de Oeiras anunciou a sua decisão a favor desta organização sem fins lucrativos, ordenando a reocupação do edifício.
Uma decisão que vem no seguimento das duas providências cautelares interpostas pela APPA no Tribunal de Oeiras e no Tribunal Fiscal e Administrativo de Sintra, depois de no dia 12 de Outubro a Câmara Municipal de Oeiras ter procedido ao seu despejo coercivo das instalações na Avenida Patrão Joaquim Lopes, na freguesia de Paço de Arcos. As instalações, para além de servirem de sede administrativa de um infantário com mais de 100 crianças, são desde 1976 palco de diversos workshops, ensaios de bandas, palestras e convívios.
Segundo o acórdão judicial, a forma como a autarquia levou a cabo a referida desocupação do imóvel, recorrendo a "buldozers", elementos da Polícia de Segurança Pública e do Corpo de Intervenção, "extravasou a utilização dos seus poderes (...), actuando fora das atribuições que lhe estão legalmente cometidas."
Para lá da violência da intervenção camarária, algumas das razões que pesaram na decisão judicial foi também o facto da Associação Popular de Paço de Arcos ter a seu cargo um infantário, bem como, estar a ocupar o edifício há cerca de 28 anos, o que o mostra adquirido "por usucapião."
Deste modo, o Tribunal de Oeiras considera que a Câmara Municipal veio "descaradamente dirimir a seu favor o conflito quanto à titulariedade do direito de propriedade sobre o referido imóvel." Uma irregularidade que sustenta a decisão judicial em ordenar a "restituição provisória à posse do requerente."
Decisão que foi logo cumprida anteontem de manhã, com dezenas de populares e associados a assistirem ao desemparedamento das instalações da APPA, visivelmente chocados com o estado de ruína em que este edifício se encontra após a ocupação autárquica.
Entre paredes destruídas, sanitários partidos, estruturas em pedaços, os dois grandes salões de actividades não passam agora de um monte de destroços, sem tecto e com grandes buracos no chão. "Uma pura maldade de quem não tem quaisquer valores", segundo desabafou o presidente da APPA, Carlos Silvestre, consternado com o completo cenário de destruição. "Parece que passou por aqui uma guerra, mas nós não vamos desistir. A câmara partiu tudo, mas nós vamos reconstruir", acrescenta, cheio de confiança. "Precisamos de licença camarária para reconstruir este espaço, mas não faz mal. Claro que quem partiu tudo isto não nos vai dar nada, mas nós seguimos em frente com licenças ou sem licenças", garante Carlos Silvestre. Em relação ao processo judicial, o presidente da APPA adianta ainda que este seguirá agora com a interposição de uma acção principal durante o mês de Janeiro, esperando-se ainda a decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra para a mesma altura.
Uma decisão que vem no seguimento das duas providências cautelares interpostas pela APPA no Tribunal de Oeiras e no Tribunal Fiscal e Administrativo de Sintra, depois de no dia 12 de Outubro a Câmara Municipal de Oeiras ter procedido ao seu despejo coercivo das instalações na Avenida Patrão Joaquim Lopes, na freguesia de Paço de Arcos. As instalações, para além de servirem de sede administrativa de um infantário com mais de 100 crianças, são desde 1976 palco de diversos workshops, ensaios de bandas, palestras e convívios.
Segundo o acórdão judicial, a forma como a autarquia levou a cabo a referida desocupação do imóvel, recorrendo a "buldozers", elementos da Polícia de Segurança Pública e do Corpo de Intervenção, "extravasou a utilização dos seus poderes (...), actuando fora das atribuições que lhe estão legalmente cometidas."
Para lá da violência da intervenção camarária, algumas das razões que pesaram na decisão judicial foi também o facto da Associação Popular de Paço de Arcos ter a seu cargo um infantário, bem como, estar a ocupar o edifício há cerca de 28 anos, o que o mostra adquirido "por usucapião."
Deste modo, o Tribunal de Oeiras considera que a Câmara Municipal veio "descaradamente dirimir a seu favor o conflito quanto à titulariedade do direito de propriedade sobre o referido imóvel." Uma irregularidade que sustenta a decisão judicial em ordenar a "restituição provisória à posse do requerente."
Decisão que foi logo cumprida anteontem de manhã, com dezenas de populares e associados a assistirem ao desemparedamento das instalações da APPA, visivelmente chocados com o estado de ruína em que este edifício se encontra após a ocupação autárquica.
Entre paredes destruídas, sanitários partidos, estruturas em pedaços, os dois grandes salões de actividades não passam agora de um monte de destroços, sem tecto e com grandes buracos no chão. "Uma pura maldade de quem não tem quaisquer valores", segundo desabafou o presidente da APPA, Carlos Silvestre, consternado com o completo cenário de destruição. "Parece que passou por aqui uma guerra, mas nós não vamos desistir. A câmara partiu tudo, mas nós vamos reconstruir", acrescenta, cheio de confiança. "Precisamos de licença camarária para reconstruir este espaço, mas não faz mal. Claro que quem partiu tudo isto não nos vai dar nada, mas nós seguimos em frente com licenças ou sem licenças", garante Carlos Silvestre. Em relação ao processo judicial, o presidente da APPA adianta ainda que este seguirá agora com a interposição de uma acção principal durante o mês de Janeiro, esperando-se ainda a decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra para a mesma altura.
Fonte: Público (edição impressa / Lisboa)
Sem comentários:
Enviar um comentário