sexta-feira, outubro 14, 2005

Perguntar: posso ?

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O texto infra foi recebido de uma leitora do verbojuridico, devidamente identificada, que de bom grado é publicado como contributo para reflexão [desejamos que o verbojuridico seja a exteriorização de uma dialéctica reflexiva, quer concordemos ou não com as ideias propostas].
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«PERGUNTAR: POSSO ?
Gostaria de perguntar porque é o manifesto de greve dos magistrados judiciais é aquilo que é : genério, inconclusivo, não define as medidas por que luta, e põe qualquer cidadão deste país a perguntar " é por isto que eles fazem greve? Não percebo nada nem deve ser para perceber".
Porquê que não se disse a coisa simples que é : os Magistrados Judiciais, na representação que lhes é atribuída de um órgão de soberania, que só tem significado se for verdadeiramente independente das influências politicas, dos demais, exigem, apenas condições de exercício condigno da sua profissão, independentemente de quaisquer veleidades de intromissão política. Juízes não fazem política, e políticos não exercem judicatura, nem que “apenas” através de tráfico de influências, ou outras maneiras menos palpáveis de intromissão.
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E independência só se consegue exigindo:
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a) respeito dos demais órgãos de soberania pelos representantes do órgão constitucional que são os Tribunais;
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b) assunção de um compromisso claro na qualidade e adequação ao sistema legislativo das futuras alterações legislativas, através da intervenção de práticos do Direito na sua feitura;
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c) criação de efectivas condições para que o desempenho das funções judiciais se exerçam de forma independente séria e consquente, o que pressupõe:
1- a autonomização financeira do sistema judicial em relação ao Ministério da Justiça, ou outro qualquer;
2- a dotação dos tribunais de instalações condignas com a função que neles se exerce;
3- a dotação dos tribunais de pessoal (Magistrados e administrativos) em número adequado à celeridade exigível das decisões que se lhes pede efectivamente qualificado, e com exigência de formação ( efectiva e não de nome, que disso já estamos fartos) permanente e adequada ao serviço a que prestam;
4- a dotação dos tribunais de um serviço informático de apoio, eficaz e operante, com a coadjuvação efectiva de pessoal especializado em informática e com conhecimentos jurídicos mínimos, de modo a que o dito serviço informático não seja mais um obstáculo a superar, como é hoje, mas um efectivo auxílio na execução do trabalho;
5- a dotação dos tribunais de segurança adequada;
6- a colocação em pleno funcionamento efectivo de outros institutos, criados formalmente para a coadjuvação da boa administração da justiça, o que na realidade não acontece,( veja-se o que se passa com os Gabinetes Médico - legais em relação aos Tribunais de Trabalho).
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d) revogação imediata dos diplomas que alteraram as férias judiciais, de molde a que os tribunais estejam em funcionamento durante todo o ano, como qualquer repartição pública, sem prejuízo do respeito do direito a férias dos Juízes, Magistrados do Ministério Público e funcionários que neles trabalham;
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e) revogação dos diplomas que subtraem o uso dos serviços sociais do Ministério da Justiça, pois que não tendo estes sido extintos, não foi dada nem existe justificação para a subtracção dos Juízes aos seus potenciais utentes;
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f) reconhecimento que a carreira de Judicatura é de desgaste rápido, e antecipação da idade da reforma para 55 anos de idade e 30 de carreira, para que assim se salvaguarde a adequação das decisões judiciais às particularidades sociais de cada momento da vida colectiva do Povo Português.;
Que é aquilo que exigimos!
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É que com o actual manifesto de greve fica-me o amargo de boca entre ter de decidir por fazer uma greve que não se justifica no que está escrito, mas no que todos sabemos, e que ficou por dizer; ou não a fazer e ser tomada como defensora de uma série de demagogias politicas, disparates legislativos e insultos velados e expressos, por um órgão de soberania que, ignorando o dever de respeito que sobre si recai em relação aos demais, e o dever de não praticar actos inúteis nem prejudiciais à boa governação da Nação, entende que pelo facto de ter sido eleito num belo dia, ficou legitimado para fazer tudo aquilo que lhe aprouver, numa transparente objectivo final de se vir sobrepor à cegueira da lei na determinação dos seus reais (não) destinatários.
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Isto num país em que o compadrio e corrupção económica e social são tão insuportáveis que obrigaram o próprio Presidente da República a propor uma inversão do ónus da prova, como forma para as combater. É preocupante mesmo.
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Com a pequena nuance que a responsabilidade do mau estado a que chegou o funcionamento dos tribunais ( que não é tudo aquilo que se diz que é) é puramente politica. Têm sido os diversos políticos, que integraram e integram os sucessivos, recentes e passados, governos, que permitiram que a legislação atinja os níveis de desadequação social que atingiu, que põe os juízes a fazer verdadeiros exercícios de charadas para conjugar o inconjugável, que deixaram reduzido o parque judiciário aos velhos e decrépitos edifícios construídos nos idos tempos do Prof. Antunes Varela, com algumas excepções que foram surgindo aqui e ali, que enchem páginas e páginas do D.R. com leis de prometido grande alcance, mas que invariavelmente provocam o contrário do fim anunciado, e que enchem a boca com sistemas informáticos que quando não bloqueiam a par da virtualidade que têm de facilitar algum serviço, exibem a de complicar o restante.»
MARIA DA GRAÇA SANTOS SILVA

5 comentários:

... disse...

Parabéns Srª Drª MARIA DA GRAÇA SANTOS SILVA (assim com grandes e maiúsculas letras); não a conheço mas presto-lhe homenagem e atrevo-me a subscrever o que assina com tanta lucidez e síntese.
Permita-me acrescentar que: impacto sério teria a ASJP se de forma firme gritasse, à cabeça, pelo fim das férias judicias como um direito dos juízes a gozarem férias em qualquer mês do ano e, juntamente com os demais pontos que Vª Exª alinha, suspendesse a realização da greve por um mês, para depois do congresso, exigindo ao governo, findo esse prazo, resposta concreta sobre cada um desses pontos.
Mais, a greve deveria ser convocada para as terças e quintas feiras para não chocar com os direitos dos cidadãos desse modo ficando sempre salvaguardadas as "48 horas" [afastando-se, assim, quaisquer "serviços mínimos" ].

João Carlos Mendes da Silva disse...

Apesar de respeitar todas as opiniões (só assim se vive em democracia), para mim é incompreensível alguns ataques que são feitos às magistraturas, mormente aos magistrados judiciais, apenas revela desconhecimento total das condições (in)dignas de trabalho dos magistrados e funcionários judiciais.
Basta olhar atentamente para as pendências processuais nos diferentes Tribunais, para que rápidamente se conclua, mesmo trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana seria humanamente impossível "levar" um processo desde a sua entrada no Tribunal, até à decisão transitada em julgado, no tempo desejado por todos (eventualmente, menos pela parte não interessada na decisão), inclusivé, pelos Juízes e, não atendendo à teoria do homem médio, bom pai de família, mas sim de um homem de inteligência superior à média e super-pai.
O mais grave é simplesmente, a factualidade de quem deveria "a priori" ter conhecimento da real situação da justiça - Governo -, oculta a verdade, ignora e espezinha todos - sem excepção - operadores judiciários.
Por vezes, aparece destacadamente nos orgãos de comunicação social que existem o mesmo nº de juízes "per capita", em relação aos países europeus com uma melhor celeridade. Na verdade, é uma estatística meramente enganadora, na medida em que socialmente Portugal é um país superiormente endividado pelo recurso ao crédito, originando um maior nº de acções com o mesmo nº de cidadãos "per capita".
Ajudar à festa, as terríveis condições de trabalho (basta entrar na maior parte dos Tribunais), falta de segurança, parque informático obsoleto, etc...
Saliento contudo, que como em todas as áreas há bons, menos bons e maus funcionários, mesmo nas magistraturas, mas felizmente os "bons" são a regra.
É pena a falta de frontalidade de alguns, blogam e assinam "pixpix", "mixmix", "rixrix", etc...

verbojuridico.net disse...

Apesar de ter sido solicitado por diversas vezes, com enunciação das regras básicas de admissibilidade de comentários neste blog, verificamos que a mesmas estão a ser sucessivamente violadas.

Mais uma vez somos forçados a lembrar que neste blog discutem-se e debatem-se ideias de natureza jurídica e/ou do sistema judicial e não quaisquer processos ou questões de natureza pessoal.

Em caso de persistência, seremos forçados a bloquear a submissão de comentários por quem abusa das regras enunciadas ou, em última instância, a não permitir a inserção de comentários de forma automática, mas tao somente mediante intermediação, o que pretendemos evitar.

Relembramos as regras fundamentais:
«1) Os comentários devem versar directa ou essencialmente sobre o(s) tema(s) do post objecto de comentário;
2) Este não é um blog político nem judicial. Não são admitidos comentários jocosos, ataques, ofensas, incisões, insinuações, provocações, desestabilizações, contendas.
3) O abuso da liberdade de expressão por alguma das formas supra enunciadas e sem o devido respeito e tolerância pelas opiniões devidamente fundamentadas de terceiros, implicará a remoção imediata e sem qualquer explicação, dos comentários que assim sejam enquadrados.
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5) Todos os comentários contendo acusações gratuitas ou infundadas, genericamente ou pessoalmente dirigidas, serão removidos. Não permitiremos jamais que este espaço de liberdade se transforme em espaço de atentado à honra, valores e princípios que estiveram na sua origem."

verbojuridico.net disse...

Devido às vicissitudes supra patentes, este post foi provisoriamente suspenso na admissão de comentários automáticos. Voltamos a permitir a inserção de comentários automáticos, face ao revelo do mesmo.

verbojuridico.net disse...

Sr. Paulo Quintela:
Foi reaberta a possibilidade de inserção de comentários neste post apenas relativamente à matéria do post e não a qualquer outro assunto. Qualquer comentário que não verse sobre a matéria do post será imediatamente removido, qualquer que seja a sua autoria.