segunda-feira, setembro 04, 2006

Da literatura lida em férias

As férias pessoais [que não são as judiciais] deixaram de ser o anterior calvário da tentativa de recuperação processual. Férias são férias, dias de serviço são dias de serviço, pois juízes são também cidadãos.
E, como qualquer cidadão com preocupações culturais, as férias são um período de leitura. Neste verão abrimos um livro há anos depositado na estante a aguardar dias de liberdade. E esses dias chegaram. Aqui segue uma transcrição:
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«Se hesitarmos em ter pena do drogado idiota que se satura da cocaína, por que razão havemos de lamentar o drogado ainda mais idiota que toma metedrina em vez da cocaína ?
Na época do Renascimento, a vida era mais apressada e mais saudavelmente febril do que a nossa. Sir Philip Sidney era embaixador aos dezasseis anos.
A velocidade dos veículos tirou a velocidade às nossas almas. Deslocamo-nos rapidamente de um ponto onde não há nada para outro ponto onde nada há que fazer, e chamamos a isto a pressa febril da vida moderna. Não é a febre da pressa, mas a pressa da febre.
(...) Qualquer gabinete dos que nos governam atira cá para fora, à hora do almoço, jovens bem parecidos, como os homens vazios dos filmes. Não se encaixam em qualquer estúpido canto do dever, mas nos espaços ainda mais estúpidos da vaidade. Não possuem categoria superior à do dândi e do gabarola, excepto no mau gosto da ousadia e no auge da bazófia (imprudência). Perdem as suas vidas não como heróis, tropeçando no acaso. A cobardia só parece uma virtude quando a coragem se oculta por baixo (assim profanada)»
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Autor contemporâneo ?
Não, o autor desta prosa é Fernando Pessoa, in Erostratus - Ensaio sobre a Fama Póstuma de Obras Literárias (RBA Collecionables SA).

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